Wu Ming e a defesa da gênese social do saber – Parte 3 – Final

Este é o último post da série sobre o coletivo italiano Wu Ming. Nos dois posts anteriores (parte 1 e parte 2) eu apresentei a vocês as ideias que estão por trás da criação do Wu Ming e também a defesa que eles fazem do copyleft em detrimento do copyright e em favor dos direitos do autor. Neste terceiro e último post vou falar sobre a postura do coletivo diante da questão da pirataria.

O Wu Ming é partidário da ideia de que as tecnologias digitais e a internet, principalmente, são catalizadoras de uma revolução social, e de que estas ferramentas tem muito a nos ajudar a mudar o estado das coisas. Eles acreditam que há uma revolução em curso amparada por essas tecnologias:

Atualmente existe um amplo movimento de protesto e transformação social em grande parte do planeta… Cavalga as mais recentes inovações tecnológicas…É aquilo que o poder econômico chama “pirataria”. É o movimento real que suprime o estado de coisas existente.

Este movimento vislumbrado por Wu Ming é caracterizado como um movimento vanguardista de massas, que engloba a defesa do “plágio” criativo, da estética do cut-up e do “sampling”, e da filosofia “do-it-yourself”. Para eles o plágio é uma prática necessária e o progresso o implica. Uma compreensão que pode ser explicada pela sua crença na gênese social do saber, saber entendido no sentido lato, como tudo aquilo produzido pelo homem. Na visão do coletivo, o copyright e o sistema de propriedade intelectual como um todo, não é algo que a sociedade necessite pra que as coisas funcionem, é um falso axioma. Durante muito tempo a civilização humana prescindiu do copyright e se ele houvesse existido desde sempre nós não teríamos conhecido obras como a epopéia de Gilgamesh, a Ilíada e a Odisséia,  a Bíblia e o Corão, todos eles felizes produtos de um amplo processo de mistura e combinação, re-escritura e transformação, isto é, de “plágio”, unido a uma livre difusão e a exibições diretas.

A invenção da internet muda tudo. Com ela as pessoas tem a chance de romper as paliçadas que os “enclosures” culturais nos impunham. Usá-la para compartilhar dados, piratear, plagiar, usá-la como astúcia contra o próprio sistema que impõe restrições através do copyright. A internet e o que ela representa para o processo criativo, portanto, seria uma pedra no sapato para os que lucram absurdos com o sistema de propriedade intelectual:

A cada noite e a cada dia milhões de pessoas, sozinhas ou coletivamente, cercam/violam/rechaçam o copyright. Fazem-no apropriando-se das tecnologias digitais de compressão (MP3, Mpge etc.), distribuição (redes telemáticas) e reprodução de dados (masterizadores, scanners). Tecnologias que suprimem a distinção entre “original” e “cópia”. Usam redes telemáticas peer-to-peer (descentralizadas, “de igual para igual”) para compartilhar os dados de seus próprios discos rígidos. Desviam-se com astúcia de qualquer obstáculo técnico ou legislativo. Surpreendem no contrapé as multinacionais do entretenimento erodindo seus (até agora) excessivos ganhos. Como é natural, causam grandes dificuldades àqueles que administram os chamados “direitos autorais”

 

In Your Face - Marxist Yob

 

Mas essa pirataria que o Wu Ming defende, ele faz questão de esclarecer, não é a pirataria  gerida pelo crime organizado, divisão extralegal do capitalismo. O que o coletivo defende é a prática autogestionada e de massas. Pirataria como sinônimo de democratização do acesso ao saber. De uma pirataria que pretende a democratização geral do acesso às artes e aos produtos do engenho, processo que salta as barreiras geográficas e sociais. Digamos claramente: barreira de classe.

A pirataria, portanto, representa muito mais que um fenômeno de cunho tecnológico, representa e revela a tensão entre copyright e anti-copyright. Uma tensão que é fruto de algo mais profundo que se encontra no cerne do próprio sistema econômico capitalista, ela faz parte de suas contradições e também funciona para alimentar o germe de seu declínio.  O conflito entre anti-copyright e copyright expressa na sua forma mais imediata a contradição fundamental do sistema capitalista: a que se dá entre forças produtivas e relações de produção/propriedade. Ao chegar a um certo nível, o desenvolvimento das primeiras põem inevitavelmente em crise as segundas. As mesmas corporações que vendem samplers, fotocopiadoras, scanners e masterizadores controlam a indústria global do entretenimento, e se descobrem prejudicadas pelo uso de tais instrumentos. A serpente morde sua cauda e logo instiga os deputados para que legislem contra a autofagia.

A postura do coletivo Wu Ming em relação à aparição das tecnologias e suas implicações no nosso modo de vida, apresentada durante esta série, nos informa sobre um debate maior no qual eles estão envolvidos. As pessoas envolvidas neste debate enxergam essas novas tecnologias como meios de combater as mazelas do sistema econômico atual e lutar pela democratização dos bens culturais. Para eles, as tecnologias digitais são verdadeiras tecnologias da liberdade.

As citações do Wu Ming usadas neste post são provenientes do texto Copyright e Maremoto que pode ser encontrado aqui.

Atualmente existe um amplo movimento de protesto e transformação social em grande parte do planeta… Cavalga as mais recentes inovações tecnológicas…É aquilo que o poder econômico chama “pirataria”. É o movimento real que suprime o estado de coisas existente.

Wu Ming e a defesa da gênese social do saber – Parte 2

Este é o segundo post da série sobre o coletivo italiano Wu Ming. Pra quem não acompanhou o post anterior e pra quem não conhece ainda este coletivo, basta ler aqui. Na primeira parte desta série, eu apresentei o coletivo falando um pouco sobre a ideia que está por trás da sua criação, qual seja a de defesa de uma cultura livre. Neste segundo post, falarei sobre os discursos e posturas do Wu Ming em relação à produção e distribuição dos bens culturais, sobre as suas ideias a respeito do copyright, copyleft e direitos autorais.

Bem, já havia dito no post anterior que o Wu Ming atuava na produção de obras literárias ficcionais e não-ficcionais. E que seus livros eram sempre publicados sob uma licença copyletf não-comercial. Esta é uma das formas de contribuírem para a democratização do saber. Esta postura, como sabemos, gera polêmica. Um polêmica que é fruto do apego de setores da nossa sociedade ao copyright e também fruto da desinformação.

Mas se qualquer um pode copiar seus livros e fazê-lo sem comprá-los, como vocês sobrevivem? Esta, segundo o Wu Ming, é a pergunta que mais é feita a eles. Seguida de uma afirmação do tipo: Mas o copyright é necessário, é preciso proteger o autor! Este tipo de afirmação, segundo o coletivo, representa a confusão que a indústria do entretenimento faz questão de criar na cabeça do público. O que a indústria quer é nos fazer acreditar que copyright e direitos autorais são a mesma coisa. Criando desinformação a respeito dessa diferença, a indústria induz o público a acreditar que é o direito do autor da obra que o copyright protege e não a propriedade privada, o monopólio de distribuição dessas obras.

E a resposta dada pelo Wu Ming aos que insinuam que o copyright projeta os direitos do autor e que sem ele o autor morre de fome, é bem simples, além de baseada numa experiência concreta do coletivo: A resposta é um seco não. Cada vez mais experiências editoriais demostram que a lógica ‘cópia pirateada = cópia não vendida’ de lógico não tem mesmo nada. De outro modo não se compreenderia como pôde o nosso romance Q, disponível grátis há mais de três anos, ter chegado à duodécima edição e superado duzentas mil cópias vendidas. Em realidade, editorialmente, quanto mais um obra circula, mais vende.


O que o Wu Ming demonstra com isso é que o copyleft longe de prejudicar o autor de uma obra, o exalta e o privilegia. E isso porque uma obra que está disponível ao público, que pode ser compartilhada e exposta, funciona como uma divulgação do trabalho daquele autor e ele tem muito mais a ganhar com isso. O copyright, ao contrário, costuma funcionar como uma forma da indústria ganhar dinheiro às custas de um autor, pois como sabemos, nem sempre é o autor de uma obra que possui os direitos de distribuição dela.

O copyright, portanto, privilegia mais as empresas do que os criadores. Ele funciona, segundo o Wu Ming, como uma arma que dispara na multidão, que dispara nos próprios usuários. Quando criado, há três séculos atrás, o copyright não era percebido como anti-social, era a arma de um empresário contra um outro, não de um empresário contra o público. O copyright desse modo, seria então, inimigo da sociedade. E inimigo porque não privilegia o acesso de todos aos bens culturais, ao saber. Muito pelo contrário, restringe, limita. Limita o acesso e a circulação das obras. Diante desta constatação aparece a reflexão sobre a quem pertence o conhecimento ou a quem ele deveria pertencer.

Para o Wu Ming, o conhecimento tem uma origem social. Todo conhecimento que criamos é fruto da relações sociais que mantemos, fruto de uma espécie de saber coletivo. Sendo assim, se o conhecimento tem uma gênese social, o uso que fazemos dele também deve ter. Considerando que o conhecimento não tem dono, porque você não produz nada sozinho, mas influenciado pela sociedade na qual você vive: Partimos do reconhecimento da gênese social do saber. Ninguém tem idéias que não tenham sido direta ou indiretamente influenciadas por suas relações sociais, pela comunidade de que faz parte etc. e então se a gênese é social também o uso deve permanecer tal qual. Nesta lógica, então, não seria justo que alguém se apoderasse de uma obra e restringisse a sua circulação, pois ela pertence a todos. O conhecimento deve ser então, nesta ótica, uma propriedade comum.

Muito bem, ficamos por aqui. No próximo post, que espero será o último, mostrarei como o Wu Ming enxerga a questão da pirataria.

As citações deste post foram tiradas de O copyleft explicado às crianças. Para mais informações sobre a discussão apresentada aqui, basta acessá-lo.

Mas se qualquer um pode copiar seus livros e fazê-lo sem comprá-los, como vocês sobrevivem?’