6 carreiras essenciais em software livre para quem não programa

Por Nithya Ruff.

Link para o texto original em inglês aqui.

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Imagem: opensource.com

Um sinal da maturidade de um movimento é quando as carreiras nele se tornam uma possibilidade. Este parece ser o caso com o software livre.

Quando comecei a trabalhar no software livre em 1999, isso era uma pequena parte do que eu fazia. Minha empresa, SGI, queria começar a vender servidores baseados em Linux, e minha tarefa era criar um processo para a comercialização de Linux. Hoje chegamos a um ponto em que software de código aberto está em quase todas as áreas de tecnologia. E enquanto nós muitas vezes ainda pensamos nisso como código e desenvolvedores, um ecossistema inteiro evoluiu em torno do software livre — e que inclui muitas carreiras em tempo integral. Esses papéis são muito necessários na medida em que o software livre amadurece, e permitem que mais gente como nós, que acreditamos no poder de desenvolvimento colaborativo, se envolva.

Para ajudar aqueles que procuram se envolver com software livre profissionalmente, aqui estão algumas das funções mais populares e emergentes.

Gerenciamento de comunidade

Este é, de longe, o papel mais amplamente conhecido no software livre e emergiu rapidamente à medida em que os projetos começaram a crescer. Gerentes de comunidade geralmente vêm de dentro do projeto e o conhecem bem, entendem a cultura do código aberto, têm habilidades de gerenciamento de projetos, e reúnem a equipe. Eles também organizam treinamentos, stands em conferências, reuniões de planejamento, etc., e muitas vezes intervém e lidam com o que for necessário para tornar o projeto bem sucedido.

Alguns dos melhores gerentes de comunidade que eu conheço são Jono Bacon do GitHub, Dawn Foster (ex-Puppet Labs), e Jeffrey Osier-Mixon do Projeto Yocto. A melhor maneira de aprender mais sobre gerenciamento de comunidade é ler o livro do Jono, The Art of Community, ou o livro da Dawn, Companies and Communities.

Documentação

Uma das áreas mais críticas para a adoção mais ampla de código aberto é a documentação— usuários, novos desenvolvedores, e até mesmo os desenvolvedores atuais dependem dela. Às vezes, escritores profissionais ou especialistas em documentação voluntários fazem o trabalho de documentação de um projeto, mas normalmente essa pessoa é um desenvolvedor. A documentação é um ótimo lugar para alguém novo se envolver e um ótimo lugar para aprender sobre um projeto. Ao se voluntariar para escrever a documentação para uma pequena parte do código, você pode se familiarizar e crescer a partir daí.

Uma das melhores especialistas de documentação que conheço é Anne Gentle. Ela é a líder de documentação na OpenStack, um projeto muito grande, com muitas partes móveis. Write the Docs e API Strategy and Practice são dois recursos que Anne usa para crescer e aprender.

Área Jurídica

Funções na área jurídica emergiram rapidamente na medida em que licenças de código aberto introduziram nuances para a prática da lei de licença. Dentro de uma empresa, os advogados aconselham sobre o uso de código aberto, compliance, contribuições e criação de políticas. Esta pessoa é muitas vezes um advogado tradicional que aprendeu conforme o uso de código aberto pela empresa cresceu.

Equipes jurídicas da comunidade podem estar na Software Freedom Conservancy ou Free Software Foundation, ajudando projetos e desenvolvedores com questões legais sobre coisas como a conformidade da licença. Advogados particulares, muitas vezes, prestam consultoria para startups, grandes empresas e projetos sobre questões de software livre. Você pode aprender mais sobre questões legais em SCaLE e LinuxCon, e em livros como o de Heather Meeker, Open (source) for business: A practical guide to open source licensing.

Ser bom com lei de código aberto requer um grande senso de compreensão das normas comunitárias e do sentimento, e não apenas a aplicação pura da lei. Alguns dos melhores advogados de código aberto que eu conheço são Eileen Evans da HP,  Lisa LaForge da SanDisk, e  Heather Meeker em O’Melveny & Myers LLP. Confira também a Open Invention Network (OIN), que é um consórcio de patentes defensivas compartilhadas com a missão de proteger o Linux. Há muitos advogados e educadores qualificados lá, como Deb Nicholson. Eles trabalham muito duro para proteger o desenvolvimento aberto de trolls de patentes e litígios.

Marketing

Marketing em software livre é uma atividade muito importante e pode ocorrer de várias formas. Marketing em uma empresa que vende um produto baseado em software livre é uma forma. Você precisa explicar por que os produtos baseados em software livre são inovadores, onde você como uma empresa agrega valor na versão comercial, e como você reduz o risco para as empresas que querem software livre, mas não querem os riscos.

Projetos de código aberto muitas vezes precisam de marketing, mas o evitam. Tracey Erway da Intel e eu tivemos a ideia de “advocacy” para o software livre quando fizemos o marketing para o Projeto Yocto. Advocacy pode ajudar projetos a arrecadarem dinheiro, recrutar mais colaboradores, e se conectarem com mais usuários.

Por último, o movimento software livre como um todo precisa se sensibilizar e divulgar as suas vitórias e sucessos. Fundações como a Linux Foundation e OpenStack Foundation fazem isso para o movimento. Todos nós precisamos ser evangelistas de projetos de software livre. Esta é uma forma de contribuir.

Para saber mais sobre o marketing em software livre, veja este vídeo que Tracey e eu fizemos há alguns anos:

Educação e jornalismo

Ainda existe uma grande necessidade de educação sobre como o software livre funciona, como se envolver, e os riscos a ele associados. Não há ninguém que sabe isso melhor do que Deb Nicholson, diretora de outreach na OIN. Ela é uma figura respeitada e reconhecida em eventos de software livre, que fala sobre patentes, licenças e as razões para adotar o software de código aberto.

A educação é um papel para aqueles que são apaixonados  por software livre e são bons comunicadores. Outra forma como a comunidade tem feito essa educação é através do jornalismo de tecnologia. Jornalistas e evangelistas como Rikki Endsley destacam questões e eventos importantes de software livre. Jornalistas mainstream, como Steven J. Vaughn-Nichols e Swapnil Bhartiya, também se tornaram uma parte da comunidade e ajudam a construir consciência e credibilidade para o software livre.

Líder de software livre em uma empresa

Uma das funções novas e emergentes é liderar a área de software livre de uma empresa. Estas áreas são chamadas de muitas coisas em diferentes empresas: programas de código aberto, estratégia de código aberto, e padrões e códigos abertos. Pessoas nessa função coordenam todas as coisas relacionadas a software livre em uma empresa e são os principais contatos para as organizações e fundações de software livre.

O foco do escritório de software livre de uma empresa depende das razões de negócios para seu envolvimento com isso. Uma empresa pode querer utilizar a metodologia de desenvolvimento de código aberto para melhorar a colaboração, focar em compliance, ou controlar a percepção do trabalho de código aberto da empresa.

Eu lidero o escritório de código aberto da SanDisk e essa tem sido uma das funções mais gratificantes que eu tenho realizado. Eu trabalho com engenheiros, advogados, gerentes de produto, executivos e com a comunidade todos os dias. É preciso uma pessoa que esteja confortável em transitar entre vários assuntos, de assuntos jurídicos em um dia para ferramentas de engenharia no outro. É preciso também de alguém que seja um agente de mudança e possa encorajar as empresas tradicionais a olharem para a inovação aberta. Alguns exemplos são: Chris DiBona no Google, Ibrahim Haddad na Samsung, Imad Sousou da Intel, e Guy Martin da AutoDesk.

Há necessidade de tantas outras funções em comunidades de software livre, como tradução, testes e organização de evento. Se você tem ideias sobre esses campos, deixe-nos um comentário ou escreva-nos em open@opensource.com.

Uma sociedade digital livre – Parte 6 – Final

Ok, é chegada a hora de encerrarmos essa série de posts sobre as ameaças de uma sociedade digital sobre a nossa liberdade, segundo Richard Stallman. Foi inevitável me alongar neles, já que o texto em si, na verdade transcrição de uma palestra do @rms, é extenso.

[Leia também as partes 1, 2, 3, 4 e 5.]

Nessa parte final, Stallman fala sobre a guerra da indústria cultural ao compartilhamento, do apoio que precisamos dar aos artistas para que eles não sejam reféns dessa indústria e, por fim, dos nossos direitos no ciberespaço. No final do texto vocês vão encontrar algumas lacunas porque talvez o áudio da palestra não tenha saído bom, o que dificultou a sua transcrição, mas nada que prejudique o entendimento da fala dele. Espero que tenham apreciado os posts! 😉

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A guerra ao compartilhamento

A próxima ameaça à nossa liberdade em uma sociedade digital vem da guerra ao compartilhamento.

Um dos grandes benefícios da tecnologia digital é que é fácil copiar obras publicadas e compartilhar estas cópias com os outros. Compartilhar é bom, e com a tecnologia digital, o compartilhamento é fácil. Assim, milhões de pessoas compartilham. Aqueles que lucram por ter poder sobre a distribuição dessas obras não querem que nós compartilhemos. E como são empresas, os governos que traíram seu povo e trabalham para o império de mega-corporações tentam servir as empresas, eles são contra o seu próprio povo, estão a favor das empresas, dos editores.

Bem, isso não é bom. E com a ajuda desses governos, as companhias têm travado uma guerra contra o compartilhamento, e eles têm proposto uma série de medidas drásticas. Porque eles propõem medidas drásticas? Porque nada menos tem uma chance de sucesso: quando algo é bom e fácil, as pessoas o fazem. A única forma de pará-los é sendo muito desagradável. Porque, é claro, o que eles propõem é desagradável, desagradável, e a próxima é mais desagradável ainda. Então, eles tentaram processar adolescentes por centenas de milhares de dólares – isso foi bastante desagradável. E eles tentaram colocar a nossa tecnologia contra nós, Gestão de Direitos Digitais (DRM), significa algemas digitais.

Mas, entre as pessoas haviam programadores inteligentes demais e eles encontraram maneiras de quebrar as algemas. Por exemplo, os DVDs foram projetados para ter filmes codificados em um formato de criptografia secreta, e a ideia era que todos os programas para decodificar o vídeo seriam proprietários, com algemas digitais. Todos eles seriam projetados para restringir os usuários. E o seu esquema funcionou bem por um tempo. Mas algumas pessoas na Europa descobriram a criptografia e lançaram um programa livre que realmente poderia reproduzir o vídeo em um DVD.

Bem, as empresas de cinema não deixaram ele lá. Elas foram para o Congresso dos EUA e compraram uma lei tornando esse software ilegal. Os Estados Unidos inventaram censura de software em 1998, com o Digital Millennium Copyright Act (DMCA). Assim, a distribuição desse programa livre foi proibida nos Estados Unidos. Infelizmente, isso não parou com os Estados Unidos. A União Europeia adotou uma directiva em 2003 exigindo tais leis. A directiva apenas diz que a distribuição comercial tem que ser proibida, mas cada país da União Europeia tem adotado uma lei mais desagradável ainda. Na França, a mera posse de uma cópia do programa é uma ofensa punida com pena de prisão, graças a Sarkozy. Creio que isso foi feito pela lei DADVSI. Eu acho que ele esperava que, com um nome impronunciável, as pessoas não seriam capazes de criticá-la.

Então, as eleições estão chegando. Pergunte aos candidatos dos partidos: você vai revogar a DADVSI? E se não, não apoie-os. Você não deve desistir do território moral perdido para sempre. Você tem que lutar para ganhá-lo de volta.

Então, nós ainda estamos lutando contra algemas digitais. O Amazon “Swindle” tem algemas digitais para tirar as tradicionais liberdades de leitores de fazer coisas como: dar um livro para outra pessoa, ou emprestar um livro para alguém. Isso é um ato de vital importância social. Isso é o que constrói a sociedade entre pessoas que lêem: emprestar livros. A Amazon não quer deixar as pessoas emprestarem livros livremente. E depois há também a possibilidade de vender um livro, talvez para um sebo. Você não pode fazer isso também.

Pareceu por um tempo que o DRM havia desaparecido na música, mas agora eles estão trazendo-o de volta com serviços de streaming como o Spotify. Todos esses serviços exigem um software cliente proprietário, e a razão é que eles podem colocar algemas digitais nos usuários. Então, rejeite-os! Eles já mostraram abertamente que não se pode confiar neles, porque primeiro eles disseram: “você pode ouvir tanto quanto você gostar”, e então disseram: “Oh, não! Você só pode ouvir um certo número de horas por mês”. A questão não é se a mudança em particular foi boa ou ruim, justa ou injusta, o ponto é, eles têm o poder de impor qualquer mudança nas políticas. Portanto, não deixe que eles tenham esse poder. Você deve ter a sua própria cópia de qualquer música que você quer ouvir.

E então veio o próximo assalto à nossa liberdade: HADOPI, basicamente punição sobre acusação. Ela foi criada na França, mas tem sido exportada para muitos outros países. Os Estados Unidos exigem agora essas políticas injustas em seus tratados de exploração livre. Há alguns meses atrás, a Columbia adotou tal lei sob as ordens de seus mestres em Washington. É claro, os de Washington não são os verdadeiros mestres, eles são apenas aqueles que controlam os Estados Unidos em nome do Império. Mas eles são os que também dão ordens à Columbia em nome do Império.

Na França, uma vez que o Conselho Constitucional se opôs explicitamente a punir as pessoas sem julgamento, eles inventaram um tipo de julgamento que não é um julgamento real, que é apenas uma forma de julgamento, para que eles possam fingir que as pessoas têm um julgamento antes de serem punidas. Mas em outros países eles não se incomodam com isso, é uma punição explícita a partir apenas da acusação. O que significa que, para o bem de sua guerra contra o compartilhamento, eles estão preparados para abolir os princípios básicos de justiça. Isso mostra como eles são completamente anti-liberdade e anti-justiça. Estes não são governos legítimos.

E eu tenho certeza que eles virão com mais ideias desagradáveis, porque eles são pagos para defender as pessoas, não importa o que aconteça. Agora, quando eles fazem isso, eles sempre dizem que é para o bem dos artistas, que eles têm que “proteger” os “criadores”. Agora, esses são dois termos de propaganda. Estou convencido de que a razão pela qual eles amam a palavra “criadores” é porque isso é uma comparação com uma divindade. Eles querem que nós pensemos os artistas como super-humanos, e, portanto, merecedores de privilégios especiais e poder sobre nós, o que é algo que eu discordo.

Na verdade, os únicos artistas que se beneficiam muito deste sistema são as grandes estrelas. Os outros artistas estão sendo esmagados no chão pelos calcanhares dessas mesmas empresas. Mas eles tratam as estrelas muito bem, porque as estrelas têm muita influência. Se uma estrela ameaça se mudar para outra empresa, a empresa diz: “oh, nós vamos dar a você o que quiser.” Mas para qualquer outro artista eles dizem: “você não importa, podemos tratá-lo de qualquer maneira que nós desejarmos.”

Assim, os astros têm sido corrompidos pelos milhões de dólares ou euros que recebem, até o ponto onde eles farão qualquer coisa para obter mais dinheiro. Por exemplo, J. K. Rowling é um bom exemplo. J. K. Rowling, há alguns anos atrás, foi ao tribunal no Canadá e conseguiu uma ordem para que as pessoas que compraram seus livros não pudessem lê-los. Ela conseguiu uma ordem dizendo às pessoas para não ler os seus livros.

Aqui está o que aconteceu. Uma livraria colocou os livros em exposição para venda muito cedo, antes do dia previsto para isso. E as pessoas entraram na livraria e disseram: “ah, eu quero esse!” e eles compraram e levaram suas cópias. Em seguida, eles descobriram o erro e tiraram as cópias da vitrine. Mas Rowling queria suprimir qualquer circulação de qualquer informação desses livros, então ela foi ao tribunal, e o tribunal ordenou que essas pessoas não lessem os livros que eles agora possuíam.

Em resposta, eu chamo um boicote total a Harry Potter. Mas eu não digo que você não deve ler os livros ou assistir aos filmes, eu apenas digo que você não deve comprar os livros ou pagar pelos filmes. Deixo a Rowling dizer às pessoas para não ler os livros. Até estou preocupado, se você emprestar o livro e lê-lo, isso está bem. Só não dê a ela nenhum dinheiro! Mas isso aconteceu com os livros de papel. O tribunal poderia fazer este pedido, mas não poderia tomar os livros de volta das pessoas que os compraram. Imagine se eles fossem ebooks. Imagine se eles fossem ebooks no “Swindle”. A Amazon poderia enviar comandos para apagá-los.

Então, eu não tenho muito respeito por estrelas que vão a tais extremos por mais dinheiro. Mas a maioria dos artistas não são assim, eles nunca conseguem dinheiro suficiente para serem corrompidos. Porque o atual sistema de copyright apoia muito mal a maioria dos artistas. E assim, quando essas empresas busca expandir a guerra ao compartilhamento, supostamente pelo bem dos artistas, eu sou contra o que eles querem, mas eu gostaria de apoiar os artistas melhores. Eu aprecio o seu trabalho e percebo que se quisermos que eles produzam mais, devemos apoiá-los.

Apoio às artes

Eu tenho duas propostas de como apoiar artistas, métodos que são compatíveis com o compartilhamento. Isso nos permitiria acabar com a guerra ao compartilhamento e ainda apoiar os artistas.

Um método usa dinheiro dos impostos. Nós temos uma certa quantidade de fundos públicos para distribuir entre os artistas. Mas, quanto deveria receber cada artista? Temos que medir a popularidade.

O sistema atual supostamente apoia artistas com base em sua popularidade. Então, eu estou dizendo que vamos manter isso, vamos continuar neste sistema baseado em popularidade. Podemos medir a popularidade de todos os artistas com algum tipo de sondagem ou amostragem, de modo que não temos de fazer vigilância. Podemos respeitar o anonimato das pessoas.

Nós temos um grau de popularidade para cada artista, como é que vamos converter isso em uma quantidade de dinheiro? A maneira mais óbvia é: distribuir o dinheiro na proporção de popularidade. Assim, se A é mil vezes mais popular que B, A terá mil vezes mais dinheiro que B. Isso não é uma distribuição eficiente do dinheiro. Não é fazer um bom uso do dinheiro. É fácil para uma estrela A ser mil vezes mais popular que um artista B razoavelmente bem sucedido. Se usamos proporção linear, nós daremos para A mil vezes mais dinheiro que damos a B. E isso significa que, temos que tornar A tremendamente rico, ou não estamos apoiando B o suficiente.

O dinheiro que usamos para tornar A tremendamente rico não está fazendo um trabalho eficaz de apoio às artes, por isso, é ineficiente. Por isso eu digo: vamos usar a raiz cúbica. Raiz cúbica parece mais ou menos assim. O ponto é: se A é mil vezes mais popular que B, com a raiz cúbica A receberá 10 vezes mais do que B, não mil vezes mais, apenas dez vezes mais. O uso da raiz cúbica move um monte de dinheiro das estrelas para os artistas de popularidade moderada. E isso significa que, com menos dinheiro nós podemos apoiar adequadamente um número maior de artistas.

Há duas razões pelas quais este sistema deverá utilizar menos dinheiro do que pagamos hoje. Em primeiro lugar, porque ele apoiaria os artistas, mas não as empresas, segundo porque deslocaria o dinheiro das estrelas para os artistas de popularidade moderada. Agora, continuaria a ser o caso de que quanto mais popular você é, mais dinheiro você recebe. Então, a estrela A ainda teria mais do que B, mas não astronomicamente mais.

Isso é um método, e porque ele não consumirá tanto dinheiro não importa muito como conseguiremos o dinheiro. Isso poderia ser a partir de uma taxa especial sobre a conexão da Internet, poderia ser apenas alguns dos [general budget] que alocaríamos para esse propósito. Nós não nos preocuparíamos porque não seria tanto dinheiro; muito menos do que estamos pagando agora.

O outro método que eu tenho proposto são pagamentos voluntários. Suponha que cada player tivesse um botão que você poderia usar para enviar um euro. Muita gente enviaria, afinal de contas isso não é muito dinheiro. Eu penso que muitos de vocês poderiam apertar esse botão todo dia, dar um euro para o artista que tivesse feito um trabalho que você gostou. Mas nada exigiria isso, você não seria obrigado ou ordenado ou pressionado a enviar o dinheiro; você faria isso porque você se sentiria à vontade. Mas há algumas pessoas que não fariam isso porque elas são pobres e elas não podem fazer esse esforço de dar um euro. E é bom que eles não vão dar, não queremos arrancar dinheiro dos pobres para apoiar os artistas. Há bastante pessoas não pobres que vão ficar felizes em fazer isso. Por que você não daria um euro a alguns artistas hoje, se você apreciado o seu trabalho? É muito inconveniente dar isso a eles. Então a minha proposta é remover o inconveniente. Se a única razão para não dar esse euro é [que] você teria um euro a menos, você faria isso com bastante frequência.

Então, essas são as minhas duas propostas de como apoiar artistas, ao mesmo tempo em que incentivamos o compartilhamento porque compartilhar é bom. Vamos colocar um fim à guerra ao compartilhamento, leis como DADVSI e HADOPI, não é apenas os métodos que elas propõem que são perversos, sua finalidade é perversa. É por isso que eles propõem medidas cruéis e draconianas. Eles estão tentando fazer algo que é desagradável por natureza. Então, vamos apoiar artistas de outras maneiras.

Direitos no ciberespaço

A última ameaça à nossa liberdade na sociedade digital é o fato de que não temos um sólido direito de fazer as coisas que fazemos, no ciberespaço. No mundo físico, se você tem certos pontos de vista e você quer dar às pessoas cópias de um texto que defende os pontos de vista, você é livre para fazê-lo. Você pode até mesmo comprar uma impressora para imprimi-los, e você está livre para entregá-los na rua, ou você está livre para alugar uma loja e entregá-los lá fora. Se você quer para recolher dinheiro para apoiar sua causa, você pode apenas ter uma lata e as pessoas podiam colocar dinheiro na lata. Você não precisa da aprovação de alguém mais ou a cooperação para fazer essas coisas.

Mas, na Internet, você precisa fazer isso. Por exemplo, se quiser distribuir um texto na Internet, você precisa de empresas para ajudar você a fazer isso. Você não pode fazer isso sozinho. Então, se você quer ter um site, é necessário o apoio de um provedor ou uma empresa de hospedagem, e você precisa de um registro de nomes de domínio. Você precisa deles para continuar a deixar você fazer o que você está fazendo. Então, você está fazendo isso efetivamente em resignação, não por direito.

E se você quiser receber o dinheiro, você não pode simplesmente segurar uma lata. Você precisa da cooperação de uma empresa de pagamento. E vimos que isso faz com que todas as nossas atividades digitais sejam vulneráveis à supressão. Nós aprendemos isso quando o governo dos Estados Unidos lançou um “ataque distribuído de negação de serviço” (DDoS) contra o WikiLeaks. Agora eu estou fazendo uma piada, porque as palavras “ataque distribuído de negação de serviço” geralmente se referem a um tipo diferente de ataque. Mas elas se encaixam perfeitamente com o que os Estados Unidos fizeram. Os Estados Unidos foram para os vários tipos de serviços de rede que WikiLeaks dependia, e disse a eles para cortar os serviços ao WikiLeaks. E eles o fizeram.

Por exemplo, o WikiLeaks tinha alugado um servidor virtual da Amazon, e o governo dos EUA disse para a Amazon: “corte os serviços para o WikiLeaks.” E ela o fez, de forma arbitrária. E então, a Amazon tinha determinados nomes de domínio, tais como wikileaks.org, o governo dos EUA tentou desligar todos esses domínios. Mas não teve sucesso, alguns deles estavam fora do seu controle e não foram desligados.

Em seguida foram as empresas de pagamento. Os EUA foram ao PayPal e disseram: “Parem de transferir dinheiro para o WikiLeaks ou vamos tornar a vida difícil para vocês.” E o PayPal suspendeu os pagamentos ao WikiLeaks. E em seguida, eles foram para a Visa e Mastercard e conseguiram que eles suspendessem os pagamentos ao WikiLeaks. Outros começaram a recolher dinheiro em nome WikiLeaks e suas contas também foram excluídas. Mas, neste caso, talvez algo pode ser feito. Há uma empresa na Islândia que começou a coletar o dinheiro em nome do WikiLeaks, e então Visa e Mastercard excluíram sua conta; ela não poderia receber o dinheiro de seus clientes também. Agora, essa empresa está processando Visa e Mastercard, aparentemente, sob leis da União Europeia, porque Visa e Mastercard têm juntos um quase-monopólio. Eles não estão autorizados a arbitrariamente negar serviço a qualquer pessoa.

Bem, este é um exemplo de como as coisas têm de ser para todos os tipos de serviços que usamos na Internet. Se você alugou uma loja para entregar declarações de que você pensa, ou qualquer outro tipo de informação que você pode legalmente distribuir, o locador não pode expulsá-lo só porque ele não gostou do que você estava dizendo. Enquanto você continuar a pagar o aluguel, você tem o direito de continuar nessa loja por um certo acordo sobre período de tempo que você assinou. Então você tem alguns direitos que você pode fazer cumprir. E não poderia desligar o seu telefone, porque a empresa de telefonia não gosta do que você disse, ou porque algum poderosa entidade não gostou do que você disse e ameaçou a empresa de telefonia. Não! Enquanto você pagar as contas e obedecer certas regras básicas, eles não podem desligar a sua linha telefônica. É isso que é ter alguns direitos!

Bem, se nós movemos nossas atividades do mundo físico para o mundo virtual, então, temos os mesmos direitos no mundo virtual, ou seremos prejudicados. Assim, a precariedade de todas as nossas atividades na Internet é a última das ameaças que eu queria falar.

Agora eu gostaria de dizer que para obter mais informações sobre software livre, procure em GNU.org. Também procure em fsf.org, que é o site da Free Software Foundation. Você pode ir lá e encontrar muitas maneiras através das quais você pode nos ajudar, por exemplo. Você também pode se tornar um membro da Free Software Foundation através desse site. […] Há também a Free Software Foundation da Europa fsfe.org. Você pode se juntar a FSF Europa também. […]

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E quem tiver com preguiça de ler os post separados, aqui tem o arquivo pdf do texto completo traduzido: Uma sociedade digital livre

Uma sociedade digital livre – Parte 5

Oi meus caros leitores, aqui está mais um pedaço do enorme texto/palestra de Richard Stallman sobre as ameaças de uma sociedade digital.

[Acompanhe na sequência as partes 1, 2, 3 , 4. e 6]

Quando pensei em publicar esse texto não imaginava que precisaria de tantos posts para isso, mas espero que vocês tenham paciência de acompanhar cada parte, pois o debate que Stallman faz é muito importante. Apesar dele concordar que as tecnologias digitais podem de alguma forma contribuir para a construção de um conhecimento livre, ele também se mostra bastante crítico em relação ao controle que essas tecnologias podem ajudar a exercer sobre nós.

Eis um trecho do texto de hoje onde ele alerta sobre isso:

“Como começamos a fazer coisas digitalmente em vez de fisicamente, não deveríamos perder nenhum dos nossos direitos, porque a tendência geral é que os percamos”.

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Big Brother está assistindo você!

 

Crédito da imagem

 

Bem, continuando mais um post da série “Uma sociedade digital livre: o que torna a inclusão digital boa ou ruim?”, hoje trouxemos mais uma parte do texto onde Stallman fala sobre as ameaças dos serviços de internet. Não vou me alongar em introduções porque o texto já é grande o suficiente, então, vamos acompanhar o que ele diz sobre isso:

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Serviços de internet

Então, passando para a próxima ameaça. Há duas questões que surgem a partir do uso de serviços de internet. Um delas é que o servidor poderia abusar de seus dados, e outra é que ele poderia assumir o controle da sua computação.

A primeira questão, as pessoas já conhecem. Elas estão conscientes de que, se você envia dados para um serviço de internet, há uma questão de o que vão fazer com esses dados. podem fazer coisas que prejudicam você. O que poderia acontecer? Eles podem perder os dados, eles poderiam mudar os dados, eles poderiam se recusar a deixar você conseguir os dados de volta. E eles também poderiam mostrar os dados para alguém que você não queria mostrar. Quatro diferentes coisas possíveis.

Agora, aqui, eu estou falando sobre os dados que você conscientemente deu a esse site. Naturalmente, muitos desses serviços fazem vigilância também.

Por exemplo, considere o Facebook. Os usuários enviam muitos dados para o Facebook, e uma das coisas ruins sobre Facebook é que ele mostra um monte desses dados para muitas outras pessoas, e mesmo que ele lhes ofereça uma configuração para dizer “não!”, isso pode realmente não funcionar. No final das contas, se você diz que “algumas outras pessoas podem ver este pedaço de informação”, uma delas pode publicá-la. Agora, isso não é culpa do Facebook, não há nada que eles possam fazer para evitar isso, mas eles devem avisar as pessoas. Em vez de dizer “marcar isto como apenas a seus supostos amigos”, eles deveriam dizer “ter em mente que seus supostos amigos não são realmente seus amigos, e se eles quiserem criar problemas para você, eles poderiam publicar isso”. Toda vez eles deveriam dizer isso, se eles querem lidar com as pessoas de forma ética.

Além de todos os dados que os usuários dão voluntariamente para o Facebook, o Facebook também está coletando dados sobre as atividades das pessoas na rede por meio de vários métodos de vigilância. Mas agora eu estou falando sobre os dados que as pessoas sabem que estão dando a esses sites.

A perda de dados é algo que sempre pode acontecer por acidente. Essa possibilidade sempre existe, não importa o quanto alguém seja cuidadoso. Portanto, você precisa manter várias cópias dos dados que são importantes. Se você fizer isso, então, mesmo que alguém decida excluir seus dados intencionalmente, ele não iria prejudicá-lo muito, porque você teria outras cópias do dados.

Então, enquanto você está mantendo várias cópias, você não tem que se preocupar muito com alguém perder seus dados. E sobre se você pode consegui-los de volta. Bem, alguns serviços tornam possível receber de volta todos os dados que você enviou, e alguns não. Serviços do Google permitirá ao usuário receber de volta os dados que o usuário colocou neles. Facebook, notoriamente, não.

É claro que no caso do Google isso só se aplica aos dados que o usuário sabe que o Google tem. O Google faz muita vigilância, também, e esses dados não estão incluídos.

Mas, em todo caso, se você pode conseguir os dados de volta, então você pode investigar se eles os alteraram. E eles não são muito propensos a começar a alterar os dados das pessoas se as pessoas podem dizer. Então, talvez possamos manter um controle sobre esse tipo particular de abuso.

Mas o abuso de mostrar os dados para alguém que você não quer que eles sejam mostrados é muito comum e quase impossível para você prevenir, especialmente se for uma empresa dos EUA. Você vê, a lei mais hipocritamente nomeada na história dos EUA foi a chamada Ato Patriota dos EUA, diz que a polícia do Big Brother pode recolher apenas todos os dados que as empresas mantêm sobre indivíduos. Não apenas empresas, mas outras organizações também, como bibliotecas públicas. A polícia pode conseguir isso massivamente, sem sequer ir ao tribunal. Agora, em um país que foi fundado sob uma ideia de liberdade, não há nada mais antipatriótico do que isso. Mas isso é o que eles fizeram. Então você não deve confiar nunca quaisquer dados seus para uma empresa dos EUA. E eles dizem que as filiais estrangeiras de empresas dos Estados Unidos estão sujeitas a isso também, então a empresa com a qual você está lidando diretamente pode estar na Europa, mas se for de propriedade de uma empresa dos EUA, você tem o mesmo problema ao lidar com ela.

No entanto, esta é uma preocupação principalmente quando os dados que você está enviando para o serviço não é para publicação. Existem alguns serviços onde você publica coisas. É claro que, se você publicar alguma coisa, você sabe que todo mundo vai ser capaz de vê-la. Assim, não há nenhuma maneira que eles possam prejudicá-lo mostrando para alguém que não devia ver. Não há ninguém que não era para ver se você publicasse. Assim, neste caso, o problema não existe.

Então, esses são quatro sub-temas de uma ameaça de abuso de nossos dados. A ideia do projeto Freedom Box é você ter seu próprio servidor em sua própria casa, e quando você quiser fazer algo remotamente, você faz com o seu próprio servidor, e os policiais têm de conseguir uma ordem judicial se quiserem realizar buscas no seu servidor . Então, dessa maneira, você tem os mesmos direitos que você teria tradicionalmente no mundo físico.

O ponto aqui e em tantas outras questões é: como começamos a fazer coisas digitalmente em vez de fisicamente, não deveríamos perder nenhum dos nossos direitos, porque a tendência geral é que os percamos.

Basicamente, a lei de Stallman diz que, em uma época em que os governos trabalham para as mega-corporações, em vez de se reportar a seus cidadãos, a cada mudança tecnológica ele pode estar aproveitando para reduzir a nossa liberdade. Porque reduzir a nossa liberdade é o que esses governos querem fazer. Então a pergunta é: quando eles têm uma oportunidade? Bem, qualquer mudança que acontece por algum outro motivo é uma possível oportunidade, e eles vão tirar proveito disso, se esse é o seu desejo geral..

Mas o outro problema com os serviços de internet é que eles podem assumir o controle de sua computação, e isso não é tão conhecido. Mas é cada vez mais comum. Há serviços que oferecem para fazer computação para você em dados que você fornece – coisas que você deve fazer em seu próprio computador, mas eles o convidam a deixar alguém fazer esse trabalho de computação para você. E o resultado é que você perde o controle sobre o trabalho. É como se você usasse um programa não-livre.

Dois cenários diferentes, mas eles levam para o mesmo problema. Se você faz a sua computação com um programa não-livre – bem, os usuários não controlam o programa não-livre, ele controla os usuários, o que inclui você. Então, você perdeu o controle da computação que está sendo feita. Mas se você fizer computação em seu servidor – bem, os programas que fazem isso são aqueles que ele escolheu. Você não pode tocá-los ou vê-los, então você não tem controle sobre eles. Ele tem controle sobre eles – talvez.

Se eles são software livre e ele instalá-los, então ele tem controle sobre eles. Mas até mesmo ele pode não ter controle. Ele pode estar executando um programa proprietário em seu servidor, neste caso é alguém mais que tem o controle da computação que está sendo feita em seu servidor. Ele não a controla e você também não.

Mas suponha que ele instale um programa livre, então ele tem controle sobre a computação que está sendo feita em seu computador, mas você não. Então, de qualquer forma, você não tem! Assim, a única maneira de você ter controle sobre a sua computação é fazê-la com a sua cópia de um programa livre.

Esta prática é chamada de “Software como um Serviço”. Significa fazer sua computação com seus dados no servidor de outra pessoa. E eu não sei de nada que pode tornar isso aceitável. É sempre algo que tira a sua liberdade, e a única solução que eu conheço é recusar. Por exemplo, há servidores que vão fazer tradução ou reconhecimento de voz, e você está deixando que eles tenham controle sobre essa atividade de computação, o que não deveríamos jamais fazer.

É claro, nós também estamos dando a eles dados sobre nós mesmos que eles não deveriam ter. Imagine se você tivesse uma conversa com alguém através de um sistema de tradução de reconhecimento de voz que fosse um Software como Serviço e ele fosse realmente executado em um servidor que pertence a alguma empresa. Essa empresa também conseguiria saber o que foi dito na conversa, e se for uma empresa dos EUA significa que o Big Brother também ficaria sabendo. Isso não é bom.

A próxima ameaça à nossa liberdade em uma sociedade digital é o uso de computadores para a votação. Você não pode confiar em computadores para votação. Quem controla o software nos computadores tem o poder para cometer fraude indetectável. Eleições são especiais. Porque não há ninguém envolvido nisso ousamos confiar plenamente. Todo mundo tem que ser verificada, verificação cruzada por outros, de modo que ninguém esteja em posição de falsificar os resultados sozinho. Porque, se alguém está em posição de fazer isso, ele pode fazê-lo! Assim, nossos sistemas tradicionais de votação foram projetados de modo que ninguém seja totalmente confiável, todo mundo fosse verificado pelos outros. De modo que ninguém poderia facilmente cometer fraudes. Mas uma vez que você introduza um programa, isso é impossível! Como você pode dizer se uma máquina de votar conta os votos de forma honesta? Você teria que estudar o programa que está sendo executado na mesma durante a eleição, o que é claro ninguém pode fazer, e a maioria das pessoas nem sequer saberia como fazer. Mas até mesmo os especialistas que poderiam, teoricamente, ser capazes de estudar o programa, eles não podem fazer isso enquanto as pessoas estão votando. Eles teriam que fazê-lo com antecedência, e, então, como é que eles sabem que o programa que eles estudaram é o que está em execução enquanto as pessoas votam? Talvez tenha sido alterado. Agora, se este programa é proprietário, isso significa que alguma empresa o controla. A autoridade eleitoral não pode nem mesmo dizer o que esse programa está fazendo. Bem, esta empresa, então, poderia fraudar a eleição. Há acusações de que isso foi feito nos EUA nos últimos dez anos, que os resultados eleitorais foram falsificados desta forma.

Mas e se o programa é software livre? Isso significa que a autoridade eleitoral que possui esta máquina de votação tem o controle sobre o software que está nela, portanto, a autoridade eleitoral pode fraudar a eleição. Você não pode confiar neles também. Não se aventure a confiar em ninguém na votação, e a razão é, não há nenhuma maneira pela qual os eleitores podem verificar por si mesmo que seus votos foram contados corretamente, nem que os votos falsos não foram adicionados.

Em outras atividades da vida, geralmente você pode dizer se alguém está tentando enganá-lo. Considere, por exemplo, comprar algo de uma loja. Você pede algo, talvez você dê um número de cartão de crédito. Se o produto não vem, você pode reclamar e você pode – é claro, se você tem uma boa memória suficiente você irá – notar que o produto não veio. Você não está apenas dando confiança cega total para a loja, porque você pode verificar. Mas nas eleições não se pode verificar.

Eu vi uma vez um artigo onde alguém descreveu um sistema teórico para a votação que utiliza algo de matemática sofisticada para que as pessoas pudessem verificar que seus votos foram contados, apesar do voto de todo mundo ser secreto, e eles também poderiam verificar que os votos falsos não tinham sido adicionados. Foi muito emocionante, matemática poderosa, mas mesmo que a matemática esteja correta, isso não significa que o sistema seria aceitável para usar na prática, porque as vulnerabilidades de um sistema real podem estar fora dessa matemática. Por exemplo, suponha que você está votando pela Internet e suponha que você está usando uma máquina que é um zumbi. Poderia dizer-lhe que a votação foi enviado para A, mas, na verdade, foi enviada para B. Quem sabe se você nunca descobriria? Na prática, a única maneira de ver se estes sistemas funcionam e são honestos é através dos anos, nas décadas de fatos, de experimentá-los e verificar de outras maneiras o que aconteceu.

Eu não gostaria que o meu país fosse o pioneiro nisso. Assim, use o papel para votação. Certifique-se de que haja cédulas que podem ser recontadas.

Uma sociedade digital livre – Parte 4

Olá a todos!

Vamos postar mais um texto da série “Uma sociedade digital livre: o que torna a inclusão digital boa ou ruim?“, estrelada por nosso amigo idealizador do movimento software livre, Richard Stallman! Só lembrando que já postamos aqui outras três partes desse texto: a primeira, onde Stallman fala sobre o perigo da vigilância que ronda uma sociedade digital; a segunda, em que ele nos alerta sobre a censura e os formatos de dados que restringem os usuários como outras duas ameaças à nossa liberdade; e a terceira parte em que ele aborda a questão do software proprietário.

Nesta quarta parte, Stallman vai apresentar as 4 liberdades do software e suas principais características. Em seguida ele fala sobre como começou o movimento software livre, através do Projeto GNU;e sobre qual a importância de se usar software livre no processo de educar. A mensagem mais importante que ele procura passar aqui, e me parece que em todos os seus textos e falas, é: sempre trate o software livre como uma questão ética!

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As 4 liberdades do software livre

Agora as liberdades essenciais são quatro:

  • Liberdade 0 é a liberdade de executar o software como você quiser.
  • Liberdade 1 é a liberdade de estudar o código fonte e alterá-lo, de modo que o software faça o que você deseja.
  • Liberdade 2 é a liberdade para ajudar os outros. Essa é a liberdade de fazer cópias do software e redistribuí-las quando você quiser.
  • Liberdade 3 é a liberdade de contribuir para sua comunidade. Essa é a liberdade de fazer cópias das suas versões modificadas do software, se você fez alguma, e então distribuí-las para outros quando você quiser.

 Essas liberdades, a fim de serem adequadas, devem aplicar-se a todas as atividades da vida. Por exemplo, se diz: “Isso é livre para uso acadêmico,” não é livre. Porque isso é muito limitado. Não se aplica a todas as áreas da vida. Em particular, se um software é livre, significa que pode ser modificado e distribuído comercialmente, porque o comércio é uma área da vida, uma atividade na vida. E essa liberdade tem de se aplicar a todas as atividades.

Agora, no entanto, não é obrigatório fazer qualquer uma dessas coisas. O ponto é que você é livre para fazê-las se quiser, quando quiser. Mas você nunca tem que fazê-las. Você não tem que fazer nenhuma delas. Você não tem que executar o software. Você não tem que estudar ou alterar o código-fonte. Você não tem que fazer nenhuma cópia. Você não tem que distribuir as suas versões modificadas. O ponto é que você deve ser livre para fazer essas coisas, se você desejar.

Agora, a liberdade número 1, a liberdade de estudar e alterar o código fonte para que o software faça o que você desejar, inclui algo que pode não ser óbvio à primeira vista. Se o software vem em um produto, e um desenvolvedor pode oferecer uma atualização que será executada, então você tem que ser capaz de fazer a sua versão executar nesse produto. Se o produto só executar versões do desenvolvedor, e se recusar a executar as suas, o executável nesse produto não é software livre. Mesmo se ele foi compilado a partir do código fonte livre, que não é livre porque você não tem a liberdade de fazer o software fazer o que você deseja. Assim, a liberdade 1 tem que ser real, e não apenas teórica. Ele tem de incluir a liberdade de usar a sua versão, e não apenas a liberdade de fazer algum código fonte que não será executado.

O projeto GNU e o movimento software livre

Lancei o movimento software livre em 1983, quando eu anunciei o plano para desenvolver um sistema operacional livre cujo nome é GNU. Agora o GNU, o nome GNU, é uma brincadeira; porque parte do espírito do hacker é ter diversão, mesmo quando você está fazendo algo muito sério. Agora eu não posso pensar em nada mais seriamente importante do que a defesa da liberdade.

Mas isso não quer dizer que eu não poderia dar ao meu sistema um nome que é uma brincadeira. Então GNU é uma brincadeira, porque é um acrônimo recursivo, que significa “GNU não é Unix”, assim G.N.U.: GNU Não é Unix. Então, o G no GNU significa GNU.

Agora, de facto, isso era uma tradição na época. A tradição era: se houvesse um programa existente e você escrevesse algo semelhante a ele, inspirado por ele, você poderia dar crédito, dando ao seu programa um nome que é um acrônimo recursivo dizendo que ele não é o outro.

Então eu dei crédito ao Unix pelas ideias técnicas dele, mas com o nome GNU, porque eu decidi fazer do GNU um sistema Unix-like, com os mesmos comandos, as mesmas chamdas de sistema, de modo que seria compatível, para que as pessoas que usassem Unix pudessem trocar facilmente.

Mas a razão para o desenvolvimento do GNU, essa foi a única. GNU é o único sistema operacional, até onde eu sei, já desenvolvido com o propósito de liberdade. Não por motivações técnicas, não por motivações comerciais. GNU foi escrito por sua liberdade. Porque sem um sistema operacional livre, é impossível ter liberdade e usar um computador. E não havia nenhum, e eu queria que as pessoas tivessem liberdade, por isso escrevi um.

Hoje em dia existem milhões de usuários do sistema operacional GNU e a maioria deles não sabem que estão usando esse sistema, porque há uma prática generalizada que não é boa. As pessoas chamam o sistema de “Linux”. Muitos fazem, mas algumas pessoas não, e eu espero que você seja um deles. Por favor, já que nós começamos isso, já que escrevemos a maior parte do código, por favor, nos dê igual menção, por favor, chame o sistema GNU+Linux, ou
GNU/Linux. Não é pedir muito!

Mas há outra razão para fazer isso. Acontece que a pessoa que escreveu o Linux, que é um componente do sistema que nós usamos hoje, não concorda com o movimento software livre. Então, se você chamar todo o sistema de Linux, na verdade você está guiando as pessoas para as suas idéias, e para longe das nossas. Porque ele não vai dizer a eles que eles merecem liberdade. Ele vai dizer que ele gosta de software conveniente, confiável e poderoso. Ele vai dizer às pessoas que esses são os valores importantes.

Mas se você lhes disser que o sistema é GNU+Linux – o sistema operacional GNU mais o kernel Linux – então eles saberão sobre nós, e então eles poderiam ouvir o que dizemos. Você merece liberdade, e já que a liberdade será perdida se não a defendermos – haverá sempre um Sarkozy para tirá-la – precisamos acima de tudo ensinar as pessoas a exigir liberdade, a estar pronto para defender a sua liberdade na próxima vez que alguém ameaçar tirá-la.

Hoje em dia, você pode dizer que não quer discutir essas idéias de liberdade, porque eles não dizem “logiciel libre”. Eles não dizem “libre”, eles dizem “open source”. Esse termo foi cunhado por pessoas como o Sr. Torvalds, que prefeririam que estas questões éticas não fossem levantadas. E assim, a maneira como você pode nos ajudar a leventá-las é dizendo libre. Você sabe, depende de onde você está, você é livre para dizer o que pensa. Se você concorda com eles, pode dizer open source. Se você concorda com a gente, mostre isso: diga libre!

Software livre e educação

Agora, o ponto mais importante sobre software livre é que as escolas devem ensinar exclusivamente software livre. Todos os níveis escolares, da educação infantil a universidade têm a responsabilidade moral de ensinar apenas software livre, e todas as outras atividades educacionais também, incluindo aquelas que dizem que estão espalhando alfabetização digital. Muitas dessas atividades ensinam Windows, o que significa que estão ensinando dependência. Ensinar as pessoas a usar software proprietário é ensinar dependência, e atividades educacionais nunca devem fazer isso, porque é o oposto de sua missão. As atividades educacionais têm uma missão social de educar os bons cidadãos de uma sociedade forte, capaz, colaborativa, independente e livre. E na área da computação, isso significa: ensinar software livre. Nunca ensinar um programa proprietário porque isso é incutir dependência.

Por que você acha que alguns desenvolvedores de softwares proprietários oferecem cópias gratuitas para as escolas? Eles querem que as escolas tornem as crianças dependentes. E, então, quando elas se formarem, eles ainda serão dependentes e você sabe que a empresa não vai oferecer a elas cópias gratuitas. E algumas delas conseguem emprego e vão trabalhar para empresas. Muitos deles não mais, mas alguns deles. E essas empresas não vão oferecer cópias gratuitas. Oh não! A ideia é que se a escola orienta os alunos no caminho da dependência permanente, isso pode arrastar o resto da sociedade para o mesmo caminho. Esse é o plano! É como dar à escola agulhas grátis cheias de drogas viciantes, dizendo “injete isso em seus alunos, a primeira dose é grátis.” Uma vez que você se torna dependente, então, você tem que pagar. Bem, a escola iria rejeitar as drogas porque não é certo ensinar os alunos a usar drogas viciantes e ela tem que rejeitar o software proprietário também.

Algumas pessoas dizem “vamos deixar a escola ensinar tanto o software proprietário quanto software livre, para que os alunos se familiarizem com os dois.” Isso é como dizer “para o almoço vamos dar às crianças o espinafre e o tabaco, de modo que eles se tornem acostumadas a ambos.” Não! As escolas só devem ensinar bons hábitos, não os ruins! Assim, não deve haver Windows em uma escola, nem Macintosh, nada proprietário na educação.

Mas, também, por uma questão de educar os programadores. Você vê, algumas pessoas têm um talento para a programação. Entre 10-13 anos de idade, normalmente, eles são fascinados, e se eles usam um programa, eles querem saber “como ele faz isso?” Mas quando eles perguntam ao professor, se for proprietário, o professor tem que dizer “Sinto muito, é um segredo, não podemos descobrir.” O que significa que a educação é proibida. Um programa proprietário é o inimigo do espírito de educação. É o conhecimento retido, por isso não deve ser tolerado em uma escola, embora possa haver muitas pessoas na escola que não se importem com programação, e não querem aprender isso. Ainda assim, porque é o inimigo do espírito da educação, não deveria estar lá na escola.

Mas se o programa é livre, o professor pode explicar o que ele sabe, e depois dar cópias do código-fonte, dizendo: “leia e você vai entender tudo.” E aqueles que são realmente fascinado, eles vão lê-lo! E isso vai lhes dar uma oportunidade para começar a aprender a como ser bons programadores.

Para aprender a ser um bom programador, você precisa reconhecer que certas maneiras de escrever o código, mesmo se elas fazem sentido para você e estão corretas, elas não são boas, porque outras pessoas vão ter problemas para compreendê-las. Bom código é um código claro, que os outros vão ter um tempo fácil de trabalho nele quando eles precisam fazer mais alterações.

Como você aprende a escrever bom código? Você faz isso através da leitura e da escrita de muito código. E somente o software livre oferece a oportunidade de ler o código de grandes programas que você realmente usa. E então você tem que escrever um monte de código, o que significa que você tem que escrever mudanças em grandes programas.

Como você aprende a escrever código bom para os grandes programas? Você tem que começar pequeno, o que não significa pequeno programa, oh não! Os desafios de escrever código para grandes programas nem sequer começam a aparecer em pequenos programas. Então, a maneira pela qual você pode começar pequeno é escrevendo pequenas mudanças em programas de grande porte. E só o software livre dá a você a chance de fazer isso!

Então, se uma escola quer oferecer a possibilidade de aprender a ser um bom programador, ela precisa ser uma escola de software livre.

Mas há uma razão ainda mais profunda, e essa é para o bem da educação moral, educação para a cidadania. Não é o suficiente para uma escola para ensinar fatos e habilidades, ela tem que ensinar o espírito da boa vontade, o hábito de ajudar os outros. Portanto, cada aula deve ter esta regra: “Alunos, se vocês levarem o software para a aula, vocês não podem mantê-lo restrito, vocês devem compartilhar cópias com o resto da classe, incluindo o código fonte no caso de alguém aqui querer aprender! Porque essa classe é um lugar onde compartilhamos nosso conhecimento. Portanto, trazer um programa proprietário para a aula não é permitido.” A escola deve seguir sua própria regra para definir um bom exemplo. Portanto, a escola deve trazer apenas software livre para a classe, e compartilhar cópias, incluindo o código-fonte, com alguém na classe que queira cópias.

Aqueles de vocês que têm uma ligação com a escola devem fazer campanha e pressionar a escola a mudar para software livre. E você tem que ser firme. Isso leva anos, mas você pode ter sucesso, desde que você nunca desista. Continue buscando mais aliados entre os alunos, o corpo docente, os funcionários, os pais, qualquer um!

E sempre trate como uma questão ética. Se alguém quer desviar a discussão para esta vantagem prática e esta desvantagem prática, significa que eles estão ignorando a questão mais importante, então você tem que dizer: “isto não é sobre como fazer o melhor trabalho de educação, é sobre como fazer uma boa educação em vez de uma ruim. É como fazer uma educação certa em vez de uma errada, não é apenas uma forma de torná-la menos ou mais eficaz.” Portanto, não se distraia com essas questões secundárias, ignorando o que realmente importa!

Leia também Uma sociedade digital livre – Parte 5 e Parte 6 Final.