Porque o software livre não é coisa de comunista

Che_Tux__Linux___Communism_by_yashton

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Não é raro encontrarmos esse tipo de afirmação por aí, sempre que participo de eventos de tecnologia, que não são necessariamente de software livre, vez ou outra alguém faz esse tipo de afirmação descabida: “software livre é coisa de comunista, ou de socialista, ou de anarquista”.  Muitas vezes ignora-se até a distinção entre essas três correntes de pensamento. Bem, quem faz esse tipo de afirmação parece não saber muito sobre software livre e/ou sobre comunismo ou as outras correntes citadas. Me senti um pouco provocada a escrever um texto com algumas considerações sobre isso, já que faço parte de comunidades de software livre e também sou pesquisadora do tema, e já fui chamada muitas vezes de comunista/anarquista por isso!

Não acho que software livre seja coisa de comunista, anarquista ou socialista, e posso explicar porque. Como também não acho que esse tipo de ideia seja propagada de forma inocente, como sendo apenas fruto de ignorância histórica, acho que existe uma intenção de desqualificar o movimento, como se ao chamá-lo de “coisa de comunista” o colocasse num patamar de clubinho de esquerda ou alguma outra qualificação que tem a intenção de ser difamatória. Não acho que o movimento software livre seja comunista, porque classificá-lo assim é encerrá-lo numa coisa menor, é homogeneizar um movimento que possui tantos ativistas e atividades diferentes que não apenas estas relacionadas à defesa do comunismo. Ele não é coisa de comunista porque na verdade ele é para todos, é um movimento onde cabem todos os tipos de correntes de pensamentos, mesmo as opostas. Há pessoas de esquerda no software livre assim como há pessoas de direita, e é essa diversidade que o tem tornado bem sucedido. O software livre é uma solução para toda a sociedade, não apenas para a esquerda comunista ou para qualquer outro grupo.

No começo dos anos 80, quando Richard Stallman anunciou ao mundo a sua ideia de criar um sistema operacional completamente livre, ou seja, passível de ser usado, estudado, alterado e compartilhado, sem que fosse necessário qualquer tipo de permissão prévia do detentor de copyright do software para isso; ele o fez porque acreditava que o conhecimento compartilhado é a chave para o desenvolvimento social,  e impedir que as pessoas possam fazer isso é uma autossabotagem, um tiro no pé:

Eu estou tentando mudar a forma como as pessoas abordam o conhecimento e a informação em geral. Eu acho que tentar se apropriar do conhecimento, tentar controlar se as pessoas estão autorizadas a usá-lo, ou tentar impedi-las de compartilhá-lo,  é sabotagem. É uma atividade que beneficia a pessoa que a faz às custas do empobrecimento de toda a sociedade. [Richard Stallman em entrevista à BYTE em 1986]

Richard Stallman não propôs o software livre porque queria abolir a propriedade privada, como o querem os comunistas. A sua intenção, como ele bem destacou acima, é aproveitar as possibilidades que as tecnologias digitais nos oferecem e, através delas, mudar a forma como estamos nos relacionando com o conhecimento. Em que isso tem a ver diretamente com o comunismo? A ideia central com a qual o software livre se relaciona não é a da gratuidade, mas a da liberdade de uso. Portanto, o software livre pode ser vendido, ou seja, alguém que produz determinado software pode vendê-lo do preço e da forma que quiser, isso é capitalismo básico. Não há no software livre a condenação da transformação do conhecimento [software, no caso] em produto e nem a condenação da ideia de se obter lucro com ele, desde que isso não  se torne um obstáculo para que o software seja compartilhado. Não importa se o software é comercial ou não, o que importa é que ele respeite as liberdades essenciais dos seus usuários.

O que movimento software livre representa, portanto, não é um projeto comunista, ele representa um projeto social inclusivo, no qual todos possam ter livre acesso ao conhecimento, sem distinção de orientação política, sexual, de questões de cor ou de credo. Querer pintá-lo como um movimento de panelinha ou de única orientação ideológica é um grande erro.

16 opiniões sobre “Porque o software livre não é coisa de comunista

  1. Meus parabéns pelo texto, Aracele, virei teu fã desde quando li seu texto sobre “O software proprietário sempre existiu?”, aquilo me inspirou de uma forma que você não faz ideia. Poder espalhar pelo mundo algo que promove a liberdade de conhecimento é maravilhoso, e essa é a essência do software livre: ser livre, de fato, para aprender e espalhar o conhecimento que abre portas pra que todos possam conviver numa sociedade mais igual em oportunidades de aprendizado e trabalho. O seu trabalho me dá esperanças de que ainda há pessoas que acreditam nisso. Muito obrigado.

  2. Parabéns pelo artigo!

    Acredito que vou colocar mais lenha na fogueira ao invés de aliviar para o lado Stallman.

    Utilizo linux com kde e até agora não abriu nada aqui com imagem do Che Guevara, Stalin ou Marilena Chauí. ufa!

    A questão das licenças é o ponto mais sensível a ser abordado no software livre, pois tocamos no direito a propriedade intelectual e aí entra o GNU sendo muito utilizado como bandeira de ideologia comunista. Basta ver o que tem de “comuna” e “petralha” envolvido no FISL. Até aquele Capilé da mídia ninja e fora do eixo já andou falando sobre coletivismo da propriedade intelectual. Acham que estes caras estão de brincadeira?

    No meu entender, o Stallman tem um discurso muito louvável e cheio de boas intenções com o mundo utópico dele, e é isso que os comunas utilizam: Utopia, um mundo lindo e perfeito, mas sempre no futuro.

    Na prática não funciona, é sempre um software “meia boca” que resulta desta utopia do Stallman. É preciso investimento no desenvolvimento de tecnologia, e isso envolve tempo e dinheiro para criar mão de obra qualificada, instalações e equipamento. Não basta apenas compartilhar.

    O linux GNU só tem “market share” com estudantes. Quando chega no mundo real a coisa muda. Tive professor que desenvolveu uma “distro” para escolas e nem um obrigado ele recebeu da secretaria de educação de um estado do Brasil. Vou além:

    1) Duvido que até hoje o Ubuntu tenha tido lucro. Só gastam grana, mas retorno que é bom, nada.
    2) Duvido que um profissional da fotografia vá trocar o Photoshop pelo Gimp que é GNU.
    3) Uso linux e gnu desde 2008 e não recomendo para computadores novos com usuários leigos em programação. É ótimo para quem quer estudar computação.

    Por outro lado, o Linux faz sucesso em servidores e até eletrodomésticos, mas daí é Linux e já estou fugindo do assunto que é o GNU.

    Quanto aos “comunas” tentarem usar o linux e software livre como bandeira e ferramenta para catequizar jovens através de convescotes contra o capitalismo, as “elite” e os “americanu”, bem, eles até fazem estas coisas, o que não impede que eu utilize o GNU para assistir um bom programa conservador no computador!😉

  3. Não acho que “vender” ou “lucrar” seja de capitalismo. Pra mim isso se chama economia monetária. Independente de capitalismo ou socialismo. Ambos não mudam em muita coisa.

    E nem vejo muita diferença entre comunismo e anarquismo (qual a diferença mesmo?). Os dois são contrários a governos. Socialismo seria o meio termo entre capitalismo e comunismo não é isso?

    Quanto a software livre, para Stallman nunca existiu meio termo e graças a isso hoje podemos usar 100% de software livre com Trisquel GNU/Linux. 100% livre de Flash, fontes, drivers e firmwares proprietários. Lembrando que também tem o GNU/Hurd saindo e GNU/kFreeBSD. Já tô cansado de Linux, mudar o kernel é sempre bom🙂

    • Pelo amor de deus meu amigo,

      Dizer que o comunismo e anarquismo são a mesma coisa?

      Dizer que comunismo é contra o governo?

      Comunismo é o pior tipo de governo que existe. É um estado totálitário onde o governo escolhe até a cor da cueca que tu vai usar. Isso se não te fuzilarem antes caso percebam que tu não tem utilidade para eles ou andou abrindo a boca para reclamar.

      Korea do Norte = Governo Comunista
      China = Governo Comunista
      Cuba = Governo Comunista

      Estude antes que o governo, a tv e a desinformação que também existe na internet, te transformem num idiota útil de Lênin.

      Mas não vale ler livrinho do MEC, vai numa biblioteca pública ou procura no google: Marxismo Cultural, Ludwig Von Mises, Steve Jobs, Decada Perdida do Marco Antonio Vila e O Livro Negro do Comunismo.

      Para começar estes já servem.

      • Comunismo = comum.
        Eu nao estou falando da ditadura que insistem em chama-la de “comunismo”.

        O que seria o Creative Commons (Criativos Comuns ou Comuns Criativos?) com essa interpretacao? Uma ditadura?

        Communism (from Latin communis – common, universal) is a classless, moneyless, and stateless social order structured upon common ownership of the means of production, as well as a social, political and economic ideology and movement that aims at the establishment of this social order.

        http://en.wikipedia.org/wiki/Communism

        O problema esta’ no socialismo – a ditadura proletaria – para chegar na anarquia ou comunismo – que tem a mesma ideia – sem *estado*. Nao eh a toa que existem os anarco-comunistas:

        Anarcho-communism differs from Marxism rejecting its view about the need for a State Socialism phase before building communism.

        http://en.wikipedia.org/wiki/Communism#Anarchist_communism

  4. AH, um segundo ponto que eu queria chamar atenção.

    Se não é verdade que software livre é sinônimo de software gratuito, também não o é de que o comunismo defenda que as coisas sejam oferecidas “gratuitamente”.

    O Comunismo tem como pressuposto uma categoria fundamental: o trabalho. Não consta no manifesto comunista que os trabalhadores tenham que trabalhar gratuitamente para quem quer que seja, muito pelo contrário, devem lutar contra o trabalho não pago, denunciando como exploração. Como então um comunista poderia defender que os programadores trabalhassem de graça? Embora a categoria dos trabalhadores intelectuais seja um pouco difícil de ser analisada nos parâmetros clássicos das categorias marxistas, isso não significa que se exija grautidade de seus serviços.

    O que o comunismo defende não é o gratuito. Aliás, o “gratuito” só faz sentido no mundo mercantil. Ele que define as relações nesta ótica, do que é ou não gratuito, do que tem e o que não tem valor.
    Uma vez num debate com um “liber”, ele me disse que quem quiser “ajudar” “os pobres”, que o faça por sua própria conta. Inclusive eles advogam pelo trabalho voluntário.

    Partem do princípio que as pessoas devem dispor livremente do trabalho. Assim, se quiser, o indivíduo podem fornecer seu serviço gratuitamente. Inclusive, dentro desta linha de raciocínio, são contra as categorias como a do trabalho escravo, posto que o trabalhador escravo só o é enquanto tal por sua vontade, podendo esta mesma vontade extinguir essa relação.

    Gratuito pressupõe vontade livre, e esta não se verifica nas relações capitalista, sendo ilusória a pretensão de que qualquer bem (“software'” ou “hardware”) por ser fornecido gratuitamente, possa acabar com as relações capitalistas.

    A extinção da propriedade privada significa também do “gratuito”, posto que gratuito só faz sentido numa sociedade capitalista.

    • *No dois útlimos parágrafo, uma correção, pq ficaram contraditórios:

      Gratuito, na ótica liberal, é faculdade da vontade e do trabalho livre, e este não se verficam, de fato, nas relações capitalista, sendo ilusória, de qualquer ponto de vista, a pretensão de que qualquer bem (“software ou “hardware”), por ser fornecido “gratuitamente”, possa acabar com as relações capitalistas. A verdade é que o trabalho gratuíto só se faz a nível marginal nas relações capitalista, essencialmente mercantis, uma exceção que não abala sua ordem.

      Por conseguinte, extinguir a propriedade privada, significa extinguir o “gratuíto”, posto que este só faz algum sentido numa sociedade mecantil ou capitalista.

    • Oi Cirovisqui, entendo o que você quis dizer, mas eu não falei que o comunismo defendia a gratuidade das coisas, eu apenas destaquei, de uma forma bem grosseira, que o cerne da ideologia do software livre não está relacionado à critica da propriedade privada pura e simples.

  5. Aracele, Entendo perfeitamente não ser a bandeira do software livre não ser uma bandeira exclusiva da esquerda, e que alguns grupos de direita (que eu saiba, os tais dos “libertários” ou “anarcocapitalistas”) e outros que não se indentificam nessa polarização igualmente reivindicam esta bandeira.

    Agora, não é a afirmação desta como bandeira de esquerda que torna como coisa de “panelinha”.

    Várias são as bandeiras que as esquerdas (socialistas, anarquistas, das mais variadas orientações) reivindica que não necessariamente estão em contradição com o capitalismo.

    Por exemplo, as que estão ligadas a pauta das opressões, a reforma agrária, identidade, defesa do meio ambinete.

    Se algumas pessoas taxam essa pautas de esquerda é pq, no Brasil pelo menos, poucos são outros grupos que defendam estas bandeiras, de forma pelo menos consistente.

    A reforma agrária é um exemplo emblemático. A direita no Brasil, nas suas várias vertente, é cada vez mais hostíl a qualquer discussão nesse sentido.

    A questão da luta contra homofobia, por exemplo, que e realmente durante muito tempo não esteve na pauta das esquerdas, vem sendo encampada pela esquerda e hogerizada pela direita.

    Por que estou citando estes exemplos, pra dizer o seguinte. Algumas pautas, embora, de imediato, não insejam rompimento com a relação fundamental do capitalismo (a propriedade privada) são igualmente repelíveis por questões ligadas a elementos mais externos, pelo menos cá nos trópicos.

    Isso se dá por uma razão muito simples, o capitalismo dependente tem por lógica uma exploração muito mais profunda, motivo que faz com que áreas que inicialmente não são fundamentais para a reprodução do sistema capitalistas sejam cada vez mais absorvidas e reguladas em função do mercado.

    A crise do capitalismo também favorece esse tipo fenômeno. Não atoa surgem projetos como a SOPA o ímpeto de regulação e taxação da compra e venda de software operadas via internet.

    Nesse contexto, a suposta pluralidade ideológica dessa bandeiras que não são essencialmente anticapitalistas vai perdendo sentido em meio a barbárie capitalista que se instala.

  6. Parabéns pelo texto Aracele!
    Pequeno adendo: O que o SL tem em comum com ideologia de esquerda: a noção da construção através do coletivo.
    Mas há outras coisas que teriam mais a ver com a direita tb…

    • Obrigada, Leonardo! Pois é, há várias características em comum que poderia citar, mas não quis me alongar muito no texto, acho que vou deixar isso pra dissertação.😉

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