Uma sociedade digital livre – Parte 3

Continuando a nossa apresentação do texto A Free Digital Society – What Makes Digital Inclusion Good or Bad? de Richard Stallman, hoje publicamos a terceira parte da seqüência. Na primeira parte tivemos Stallman discutindo a questão da vigilância como uma das grandes ameaças de uma sociedade digital, você pode conferir tudo isso aqui. Na segunda, Stallman falou de mais dois tipos de ameaças: a censura e o formato de dados restrito. Esta segunda parte pode ser lida aqui.

Nesta terceira parte do texto apresentada hoje, o tema abordado por Richard Stallman será o software proprietário como uma grande ameaça à nossa liberdade na cultura digital. Stallman pontua algumas questões sobre como esse tipo de software exerce um controle sobre seus usuários e esconde recursos maliciosos.

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Software que não é livre

Agora isso me leva à próxima ameaça que vem do software sobre qual os usuários não têm controle. Em outras palavras: software que não é livre, que é não “libre”. Neste ponto em particular o francês é mais claro que o inglês. A palavra “free” em inglês significa “libre” e “gratuit” (“livre” e “gratuito” em francês), mas o que quero dizer quando digo “free software” é “logiciel libre” (“software livre” em francês). Eu não quero dizer “gratuit”. Eu não estou falando sobre o preço. Preço é uma questão à parte, apenas um detalhe, porque isso não importa eticamente. Você sabe que se eu tiver uma cópia de um software e vendê-la por um ou cem euros, quem se importa? Por que alguém deveria achar que isso é bom ou ruim? Ou suponha que eu o dei para você “gratuitement” (“de graça” em francês)… Ainda assim, quem se importa? Mas se este software respeita a sua liberdade, isso é importante!

Então, o software livre é um software que respeita a liberdade dos usuários. O que isso significa? Em última análise, há apenas duas possibilidades com o software: ou os usuários controlam o software ou o software controla os usuários. Se os usuários têm certas liberdades essenciais, então, eles controlam o software, e essas liberdades são o critério para o software livre. Mas, se os usuários não têm plenamente as liberdades essenciais, o software controla os usuários. Mas alguém controla esse software e, através dele, tem poder sobre os usuários.

Assim, um software não livre é um instrumento para dar a alguém poder sobre um monte de outras pessoas e isso é poder injusto que ninguém nunca deveria ter. É por isso que software não livre  (les logiciels privateurs, qui privent de la liberté), porque software proprietário é uma injustiça e não deveria existir, porque ele deixa os usuários sem liberdade.

Agora, o desenvolvedor que tem o controle do software muitas vezes se sente tentado a introduzir recursos maliciosos para explorar ainda mais ou abusar desses usuários. Ele sente uma tentação porque ele sabe que pode ir longe com isso: porque o seu software controla os usuários e os usuários não têm controle do software, se ele coloca um recurso malicioso, os usuários não podem corrigi-lo, ou seja, eles não podem remover este recurso malicioso.

Eu já tinha dito a vocês sobre dois tipos de recursos maliciosos: recursos de vigilância, tais como os que são encontrados no Windows, e no iPhone e Flash Player, e no Amazon “Swindle”. E há também recursos para restringir os usuários, que trabalham com formatos de dados secretos, e esses são encontrados no Windows, Macintosh, no iPhone, Flash Player, no Amazona “Swindle”, no Playstation 3 e muitos e muitos outros softwares.

O outro tipo de recurso malicioso é o backdoor. Isso quer dizer que o programa está recebendo comandos remotos e obedecendo-os, e esses comandos podem ser uma ameaça ao usuário. Sabemos de backdoors no Windows, no Iphone, no Amazon “Swindle”. O Amazon “Swindle” tem um backdoor que pode apagar remotamente livros. Sabemos isso por observação, porque a Amazon fez isso: em 2009 a Amazon remotamente apagou milhares de cópias de um livro particular. Essas eram cópias autorizadas, as pessoas tinham obtido-as diretamente da Amazon e, assim, a Amazon sabia exatamente onde estavam, que é como a Amazon sabia para onde enviar os comandos para apagar esses livros. Você sabe qual o livro a Amazon excluiu? 1984 de George Orwell. É um livro que todos devem ler, porque discute um estado totalitário que fez coisas, como deletar livros que ele não gosta. Todo mundo deveria lê-lo, mas não no Amazon “Swindle”.

De qualquer forma, recursos maliciosos estão presentes na maioria dos softwares não livres mais usados, mas eles são raros em software livre, porque com o software livre os usuários têm o controle: eles podem ler o código-fonte e podem mudá-lo. Então, se houvesse um recurso malicioso, alguém mais cedo ou mais tarde iria detectá-lo e corrigi-lo. Isso significa que alguém que está considerando a introdução de um recurso malicioso não acha tão tentador, porque ele sabe que pode escapar por um tempo, mas alguém vai detectá-lo, corrigi-lo, e todo mundo vai perder a confiança no autor do recurso. Não é tão tentador quando você sabe que você falhará. E é por isso que nós achamos que recursos maliciosos são raros em software livre, e comuns em software proprietário.

Leia também: Uma sociedade digital livre – Parte 4 e Parte 5 e Parte 6 Final.

4 opiniões sobre “Uma sociedade digital livre – Parte 3

  1. Pingback: Uma sociedade digital livre – Parte 6 – Final « Cibermundi

  2. Pingback: Uma sociedade digital livre – Parte 5 « Cibermundi

  3. Pingback: Uma sociedade digital livre – Parte 1 « Cibermundi

  4. Pingback: Uma sociedade digital livre – Parte 2 « Cibermundi

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