Community memory, por uma informática libertária

Na década de 70, quando surgiram os primeiros microprocessadores, e com eles a possibilidade de computadores menores e mais potentes, a noção que se tinha de computadores começou a mudar completamente. Na verdade, a partir desse momento eles começam a perder o status de máquinas enormes, que pesavam toneladas e que eram restritas ao uso dos grandes informatas, cientistas e, principalmente, máquinas a serviço da(s) guerra(s). Os computadores vão sendo (re)significados a partir de outra noção completamente oposta: sendo introduzidos no cotidiano das pessoas e desempenhando também um papel de tecnologia libertadora. Para além dos cientistas e informatas, interessados em utilizar esta tecnologia como máquinas calculadoras e/ou como inteligências artificiais a serviço da conquista da hegemonia política, em meio a um contexto bélico; haviam os que vislumbravam para o computador um futuro mais libertário, com um uso mais socialmente justo.

Com os microprocessadores foi possível construir microcomputadores que alimentaram a utopia de uma comunidade de jovens hackers californianos, os mesmos que também defendiam a paz em plena Guerra do Vietnã. Tudo começou na Universidade de Berkeley, onde esse grupo de hackers, através de bricolagens eletrônicas, desenvolveu os primeiros computadores pessoais. A ideologia por trás dessa iniciativa era a de fazer com que os computadores fossem acessíveis ao povo, colocá-los a serviço das pessoas e não contra elas. Estes hackers usaram todos os seus conhecimentos técnicos em prol da liberdade da informação e da liberdade das pessoas. Para eles, a informática devia ser sinônimo de liberdade, não de controle, de inclusão e não o contrário. Computers for the people (computadores para o povo) foi o lema do movimento. Essa comunidade hacker se formou em torno da região conhecida até hoje como o Vale do Silício, famosa por ser o berço de inovações científicas e tecnológicas, e que na década de 70 abrigou diversas utopias: universidades, indústrias de eletrônica, instituições científicas, movimentos como o hippie e o hacker etc.

Um dos projetos desenvolvidos por esse movimento libertário foi o Community Memory, criado em 1973. Ele tinha como intenção fazer uma rede de informações que funcionasse de forma descentralizada, possuindo terminais espalhados por toda região, através dos quais as pessoas pudessem produzir e/ou ler informações da forma que lhes fosse mais conveniente. Desse modo, a comunidade teria à sua disposição uma fonte alternativa de informações, produzida por ela mesma e relacionada com seus interesses e necessidades.

Enfim...uma memória da comunidade! Pedaço do guia de utilização do Community Memory, datado de abril de 1974. Era uma espécie de jornal produzido pelo grupo para informar sobre suas intenções.

O Community Memory se apropriou da ARPANET, a rede descentralizada de comunicação criada pelos militares em 1969, que deu origem à nossa internet, para construir comunidades on-line inovadoras, compartilhadoras de informações e construtoras de inteligências coletivas. E foi isso que começou a ser feito quando um grupo de nerds começou a pensar na combinação de sistemas de informação e sociedade. Ken Colstad, Mark Szpakowski, Lee Felsenstein e Efrem Lipkin tiveram a ideia de criar um sistema que funcionasse como uma fonte de informações para a comunidade. Com a ajuda do grupo Resource One, também defensor da causa da informática libertária, o Community Memory montou seu primeiro terminal público, uma máquina feia, como diz Steven Levy, no segundo andar da Leopold’s Records, uma famosa loja de discos californiana.

Na imagem: primeiro terminal do Community Memory na Leopold's Records

Segundo Levy, depois do Community Memory era inevitável que os computadores chegassem ao povo. Após a instalação do primeiro terminal. mesmo sendo considerados como desumanos, não orgânicos, belicistas e inflexíveis, os computadores não foram vistos necessariamente como uma ameaça ao bem-estar das pessoas. Com o seu projeto, os hackers californianos davam sua contribuição para a guerra de guerrilha das pessoas contra a burocracia, tendo como arma fundamental a tecnologia.

Logo a seguir está um trecho da descrição das intenções feita pelo grupo em 1972:

Nossa intenção é introduzir a Community Memory em bairros e comunidades desta região, e torná-la acessível para que possam viver com ela, brincar com ela, e formar o seu crescimento e desenvolvimento. A idéia é trabalhar com um processo por meio de ferramentas tecnológicas, como computadores, que são utilizados pelas próprias pessoas para moldar suas próprias vidas e as comunidades de uma maneira sadia e libertadora. Neste caso, o computador permite a criação de um banco de memória comum, acessível a qualquer pessoa da comunidade. Com isso, podemos trabalhar fornecendo a informação, os serviços, as habilidades, a educação e o apoio econômico que a nossa comunidade necessita. Temos uma ferramenta poderosa – um gênio – à nossa disposição, a questão é saber se podemos integrá-lo em nossas vidas, mantê-lo e usá-lo para melhorar nossa própria vida e a nossa capacidade de sobrevivência.

A mudança é possível, diziam os hackers do Community Memory! E ela podia ser vislumbrada nas tecnologias que emergiam do pós-guerra, desde que pudessemos usá-las para potencializar nossas habilidades de comunicação, educação etc. Os hackers dos anos 70 forneceram uma outra leitura possível da informática, uma concepção impregnada pelo desejo de revolução social, justiça e liberdade. A informática não precisaria ser necessariamente uma arma para aniquilar, subjugar, dominar os homens. Ela bem pode nos conectar, nos tornar compartilhadores, nos tornar mais inteligentes. Essa era uma das utopias que se podia encontrar na Califórnia do século XX, e em muitos outros lugares, ontem e hoje!

Para saber mais:

Hackers: heroes of the computer revolution – Steven Levy
História da Informática – Philippe Breton
Remembering Community Memory / The Berkeley beginnings of online community
The People’s Computer Company and The Community Memory Project

3 opiniões sobre “Community memory, por uma informática libertária

  1. Pingback: 15 anos de KDE: O KDE e Eu at Filipe Saraiva's blog

  2. Bacana =) só tem uma coisa que eu acho que você romantizou um pouco: não acho que existia como prioridade na cabeça desses hackers, nem nas ações deles o conceito de ‘justiça’, especialmente de justiça social.

    A ideia deles é que computadores potencializavam a capacidade humana e que as barreiras burocráticas para o uso deles não deveriam existir, é verdade. Isso não significa que eles acreditavam que todos fossem tão merecedores de usar computadores como eles próprios.

    Há uma ideia de meritocracia fortemente imbuída no que os hackers originais acreditavam – para merecer acesso você tem que se mostrar bom o suficiente para fazer valer a pena. Note que isso não significa que eles acreditassem que algumas pessoas não deviam ter acesso, eles só acreditavam que enquanto o tempo computacional fosse limitado eles deveriam ter prioridade.

    Há várias passagens no livro em que essa contradição fica bem clara: ao mesmo tempo em que eles propagavam a ideia de acesso universal eles eram de fato uma elite auto-escolhida, que acredita que o direito que tinham de usar o computador estava no fato de eles conseguirem fazer coisas brilhantes com eles, não num direito fundamental de qualquer ser humano.

    Foram essa e outras contradições o que mais me marcaram na leitura desse livro. Foi muito marcante pra mim quando eles perceberem eventualmente que era o esforço de guerra que bancava as noites de hacking e o avanço das máquinas e tecnologias que eles tanto amavam e de eles terem usado as mesmas estratégias de cerceamento de acesso que detestavam quando “o povo” veio com tochas e paus pra destruir aquela máquina de guerra, o computador.

    Isso não desmecere o trabalho fantástico que esses hackers originais fizeram, que acabou resultando no movimento do Software Livre e que trouxe até nossa geração as ideias de que dar às pessoas acesso a computadores é um objetivo louvável, que ter controle sobre a tecnologia é importante, que compartilhamento potencializa, mas também mostra que raras vezes as coisas são brancas ou pretas – na maioria das vezes o que há é um enorme número de tons de cinza =)

    • Engraçado, porque não foi isso que eu vi nas leituras que fiz. A tentativa de “deselitizar” a computação se relaciona com a ideia de inclusão, de popularização. Não entendo como isso não tem a ver com justiça social. Lutar para que todos tenham acesso à essas tecnologias e para que as pessoas tenham suas vidas melhoradas, social e economicamente, através do uso delas. Se isso não é justiça social, então não sei o que é.
      Mas eu concordo com você quando diz que essa não é a prioridade. Não, não é mesmo. Por isso que eu não disse isso no texto, não coloco que justiça seja a prioridade do movimento. Mas teremos que admitir que essa é uma das facetas dele. Não a única, mas uma de várias. E esse post não tem a menor pretensão de limitar as leituras sobre o tema, apenas apresentar leituras possíveis. Até porque essa é a única coisa que podemos fazer em relação aos acontecimentos do passado, que não vivenciamos, apresentar leituras possíveis, porque a verdade sobre o passado nem sempre está ao nosso alcance. Acredite, isso deixa muito historiador inquieto! =)

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