Wu Ming e a defesa da gênese social do saber – Parte 2

Este é o segundo post da série sobre o coletivo italiano Wu Ming. Pra quem não acompanhou o post anterior e pra quem não conhece ainda este coletivo, basta ler aqui. Na primeira parte desta série, eu apresentei o coletivo falando um pouco sobre a ideia que está por trás da sua criação, qual seja a de defesa de uma cultura livre. Neste segundo post, falarei sobre os discursos e posturas do Wu Ming em relação à produção e distribuição dos bens culturais, sobre as suas ideias a respeito do copyright, copyleft e direitos autorais.

Bem, já havia dito no post anterior que o Wu Ming atuava na produção de obras literárias ficcionais e não-ficcionais. E que seus livros eram sempre publicados sob uma licença copyletf não-comercial. Esta é uma das formas de contribuírem para a democratização do saber. Esta postura, como sabemos, gera polêmica. Um polêmica que é fruto do apego de setores da nossa sociedade ao copyright e também fruto da desinformação.

Mas se qualquer um pode copiar seus livros e fazê-lo sem comprá-los, como vocês sobrevivem? Esta, segundo o Wu Ming, é a pergunta que mais é feita a eles. Seguida de uma afirmação do tipo: Mas o copyright é necessário, é preciso proteger o autor! Este tipo de afirmação, segundo o coletivo, representa a confusão que a indústria do entretenimento faz questão de criar na cabeça do público. O que a indústria quer é nos fazer acreditar que copyright e direitos autorais são a mesma coisa. Criando desinformação a respeito dessa diferença, a indústria induz o público a acreditar que é o direito do autor da obra que o copyright protege e não a propriedade privada, o monopólio de distribuição dessas obras.

E a resposta dada pelo Wu Ming aos que insinuam que o copyright projeta os direitos do autor e que sem ele o autor morre de fome, é bem simples, além de baseada numa experiência concreta do coletivo: A resposta é um seco não. Cada vez mais experiências editoriais demostram que a lógica ‘cópia pirateada = cópia não vendida’ de lógico não tem mesmo nada. De outro modo não se compreenderia como pôde o nosso romance Q, disponível grátis há mais de três anos, ter chegado à duodécima edição e superado duzentas mil cópias vendidas. Em realidade, editorialmente, quanto mais um obra circula, mais vende.


O que o Wu Ming demonstra com isso é que o copyleft longe de prejudicar o autor de uma obra, o exalta e o privilegia. E isso porque uma obra que está disponível ao público, que pode ser compartilhada e exposta, funciona como uma divulgação do trabalho daquele autor e ele tem muito mais a ganhar com isso. O copyright, ao contrário, costuma funcionar como uma forma da indústria ganhar dinheiro às custas de um autor, pois como sabemos, nem sempre é o autor de uma obra que possui os direitos de distribuição dela.

O copyright, portanto, privilegia mais as empresas do que os criadores. Ele funciona, segundo o Wu Ming, como uma arma que dispara na multidão, que dispara nos próprios usuários. Quando criado, há três séculos atrás, o copyright não era percebido como anti-social, era a arma de um empresário contra um outro, não de um empresário contra o público. O copyright desse modo, seria então, inimigo da sociedade. E inimigo porque não privilegia o acesso de todos aos bens culturais, ao saber. Muito pelo contrário, restringe, limita. Limita o acesso e a circulação das obras. Diante desta constatação aparece a reflexão sobre a quem pertence o conhecimento ou a quem ele deveria pertencer.

Para o Wu Ming, o conhecimento tem uma origem social. Todo conhecimento que criamos é fruto da relações sociais que mantemos, fruto de uma espécie de saber coletivo. Sendo assim, se o conhecimento tem uma gênese social, o uso que fazemos dele também deve ter. Considerando que o conhecimento não tem dono, porque você não produz nada sozinho, mas influenciado pela sociedade na qual você vive: Partimos do reconhecimento da gênese social do saber. Ninguém tem idéias que não tenham sido direta ou indiretamente influenciadas por suas relações sociais, pela comunidade de que faz parte etc. e então se a gênese é social também o uso deve permanecer tal qual. Nesta lógica, então, não seria justo que alguém se apoderasse de uma obra e restringisse a sua circulação, pois ela pertence a todos. O conhecimento deve ser então, nesta ótica, uma propriedade comum.

Muito bem, ficamos por aqui. No próximo post, que espero será o último, mostrarei como o Wu Ming enxerga a questão da pirataria.

As citações deste post foram tiradas de O copyleft explicado às crianças. Para mais informações sobre a discussão apresentada aqui, basta acessá-lo.

Mas se qualquer um pode copiar seus livros e fazê-lo sem comprá-los, como vocês sobrevivem?’

3 opiniões sobre “Wu Ming e a defesa da gênese social do saber – Parte 2

  1. Pingback: Wu Ming e a defesa da gênese social do saber – Parte 3 – Final « Cibermundi

    • Obrigada! Conheci Wu Ming pela internet mesmo, quando pesquisava sobre cultura livre e copyleft pra fazer a minha monografia.

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