Computador: de máquina militar a máquina de guerra

Na segunda década de 1940, quando surgiram os primeiros computadores, seu uso era voltado apenas para militares e sua função era realizar cálculos científicos. Creio que nem de longe seus inventores poderiam imaginar o grau de periculosidade que essas máquinas teriam no futuro, coisa que nós, herdeiros dessa tecnologia, sabemos muito bem.

O perigo ao qual me refiro não diz respeito a ameaças a existência humana ou algo do tipo, há muito mais coisa que ameaça-nos do que os computadores. Embora, os EUA queiram nos fazer acreditar que os ataques virtuais estão entre as três maiores ameaças mundiais (entenda-se ameaças a sua hegemonia e não a humanidade) , perdendo apenas para armas de destruição em massa e para bombas.

Atualmente, o novo plano dos americanos consiste em espalhar o terror pelo mundo inteiro de um possível ataque cibernético ou “cybergeddon”, como eles preferem chamar. O diretor adjunto da divisão informática do FBI, Shawn Henry, disse essa semana que um apocalipse cibernético (grifo meu) é o maior risco para a segurança nacional. A idéia é a de que os terroristas ou piratas virtuais estariam planejando um outro 11 de setembro só que dessa vez virtual.

O que me desperta o interesse pra essa situação toda é a visível condição de ameaçado que se encontra os EUA. Tal condição só me faz constatar que o feitiço voltou-se contra o feiticeiro. Explico.

Os criadores perderam o controle sobre suas criaturas, os EUA não conseguem controlar o uso que os indivíduos fazem do computador. Isso só me faz lembrar do conceito de consumo e tática de Michel de Certeau:

Na realidade, diante de uma produção racionalizada, expansionista, centralizada, espetacular e barulhenta, posta-se uma produção de tipo totalmente diverso, qualificada como “consumo”, que tem como característica suas astúcias, seu esfarelamento em conformidade com as ocasiões, suas “piratarias”, sua clandestinidade, seu múrmurio incansável, em suma, uma quase-invisibilidade, pois ela quase não se faz notar por produtos próprios (onde teria o seu lugar?) mas por umaarte de utilizar aqueles que lhe são impostos. (A invenção do cotidiano 1: artes de fazer, 6 ed. Editora Vozes, p. 94)

A arte da qual fala Certeau é aquela praticada pelos que fazem do produto alheio uma arma de guerra, no caso os que fazem do computador e da internet uma arma contra quem os criou, ou melhor, contra o sistema que possibilitou sua criação e desenvolvimento.

O que fazem os piratas virtuais se não for subverter um espaço que seria por excelência de um poder proprietário? Suas táticas tem como lugar de ação o território criado por esse poder e “pretensamente” controlado por ele. Eles criam surpresas, agem quase na invisibilidade, dão golpes dentro do campo inimigo: gestos hábeis do “fraco” na ordem estabelecida pelo “forte”, arte de dar golpes no campo do outro, astúcias de caçadores, mobilidades na manobras, operações polimórficas, achados alegres, poéticos e bélicos. (A invenção do cotidiano 1: artes de fazer, 6 ed. Editora Vozes, p. 104)

3 opiniões sobre “Computador: de máquina militar a máquina de guerra

  1. os consumidores-produtores usam de forma oupacional da lugar do inimigo para a construção das armas com as quais irão derrota-lo.

  2. Hum nêga, é isso mesmo. Engraçado, não sabia que o Certeau tem esse conceito de consumidor. O Phelipe tratou os tecno-contraventores como consumidores na mesa, e o pessoal olhou meio torto para ele.Se soubesse que era isso.Beijo!

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