Occupy Wall Street: podemos na esquerda aprender alguns truques novos?

Em tempos de grave crise financeira os EUA virou palco de um movimento inspirado nas revoltas pró-democracia do Oriente Médio. O Occupy Wall Street é um movimento sem líderes que pretende repetir Tahrir na terra do Tio Sam. A ideia é reunir, pelo menos, 20 mil pessoas acampadas em Manhattan, onde está localizado o centro financeiro do país, Wall Street, para protestarem, de forma não violenta, contra o sistema capitalista, a corrupção e a favor da democracia e da liberdade. A ocupação começou ontem, 17 de setembro, e não tem data para terminar. Ela foi convocada em julho deste ano através do site da, já conhecida, organização anti-consumista Adbusters.

No trecho abaixo podemos entender melhor quais são as principais motivações do protesto:

As pessoas que vêm para Wall Street em 17 de setembro, vêm por várias razões, mas o que une todos elas é a oposição ao princípio que passou a dominar não só a nossa vida econômica, mas a nossa vida inteira: o lucro acima de tudo. (…) O mundo não tem que ser dessa maneira. Uma sociedade de crueldade e isolamento pode ser confrontada e substituída por uma sociedade de cooperação e comunidade. Os cínicos dirão que este mundo não é possível. Que as forças dispostas contra nós ganharam e sempre vencerão e, talvez, devam sempre ganhar. Mas eles não são deuses. Eles são seres humanos, como nós. Eles são um produto de uma sociedade que recompensa o comportamento que nos trouxe para onde estamos hoje. Eles podem ser confrontados. E mais, eles podem ser alcançados. Eles só precisam nos ver. Ver além das etiquetas de preços que levamos. E se eles são deuses? Então seremos Prometeu. E vamos rir pois estamos amarrados à pedra para esperar a águia.

O movimento está envolto pela pretensão de criar novas estratégias para que, enquanto esquerda, consiga se articular em torno de soluções, digamos, menos utópicas e mais pragmáticas:

Podemos na esquerda aprender alguns truques novos? Podemos partir para Manhattan com uma mentalidade nova e uma reivindicação nova e poderosa? Estrategicamente falando, há um perigo muito real de que se nós ingenuamente colocarmos as cartas na mesa e nos reunirmos em torno da “derrocada do capitalismo” ou algum utópico slogan igualmente desgastado, então o nosso momento Tahrir irá rapidamente fracassar como um outro espetáculo ultra-esquerdista inconseqüente logo esquecido.

Occupy Wall Street busca se diferenciar do que chama de espetáculo ultra-esquerdista inconsequente através, por exemplo, de proposições como a do retorno da Lei Glass-Steagall, criada nos EUA durante a crise de 29 para conter os seus efeitos e revogada em 1999, depois de anos de pressão do setor bancário. Essa lei pretendia evitar, entre outras coisas, a especulação financeira e um novo colapso bancário, principalmente através da proibição de bancos comerciais exercerem atividades de bancos de investimento. Uma outra proposta encarada por eles como viável e simples seria exigir um imposto de %1 sobre as transações financeiras. Ambas as propostas teriam, assim como outras que podem surgir, de emergir de assembleias populares convocadas durante a ocupação.

Neste exercício de repensar as práticas de uma esquerda desgastada, o movimento aponta para o que considera ser os tipos de práticas adequadas para o sucesso do seu protesto e, consequentemente, dos protestos da esquerda em geral. Há um destaque para a ausência de partidos políticos, para a importância das assembleias populares e para a construção de um movimento pacífico:

Então, vamos aprender as lições estratégicas de Tahrir (não-violência), Syntagma (tenacidade), Puerta del Sol (assembleias populares) e deixar de lado a adesão a partidos políticos e dogmas desgastados da esquerda. Em 17 de setembro, vamos plantar as sementes de uma nova cultura de resistência na América que inicia um despertar democrático permanente.

E como em tempos de movimentos em rede nada (ou quase nada) escapa de cair no ciberespaço, o Occupy Wall Street já começa a ultrapassar as fronteiras norte-americanas e se espalhar pelo resto do mundo. Um movimento de proporções internacionais convoca à todos para ocuparem o centro financeiros de suas cidades imediatamente, é o September 17th EVERYWHERE! Nessa página você encontrará informações sobre todos os focos do movimento em diversas partes do mundo.

Você também pode acompanhar as notícias sobre os protestos nas redes sociais:

Twitter: @OccupyWallSt  Hashtags usadas no twitter: #OccupyWallStreet #TakeWallStreet #sep17 #ows

Live stream: http://www.livestream.com/globalrevolution

Facebook: https://www.facebook.com/event.php?eid=144937025580428

Tumblr: http://occupywallstreet.tumblr.com/

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4 thoughts on “Occupy Wall Street: podemos na esquerda aprender alguns truques novos?

  1. Ótimo texto Aracele, realmente o Occupy pode dar grandes lições de envolvimento político e social, talvez seja o maior sinal da nova era política pós-polarização

  2. Gostei do teu post. Tirou algumas dúvidas sobre o movimento. Pelo menos num coisa eles têm razão: que o capitalismo precisa de regras mais coercitivas à especulação predatória, que nada produz além de crises como estamos vendo com desemprego e desespero para muitos e lucros para uns poucos.Valew!

  3. Pacífico esse movimento não é mais. Pelo texto acima fica claro que de anti-capitalismo eles não tem nada. O que eles querem é um capitalismo mais regulamentado, porém, ocupar wall-street não resolve absolutamente nada. Deveriam sim é ocupar o congresso e a casa branca, pois são os políticos que fazem as leis e se beneficiam delas. São os políticos que tem o poder de regulamentar o mercado.

    Que protestem contra o lobby das grandes empresas, sim, mas façam o protesto no lugar correto. A Nyse não está nem aí e milhões de investidores, inclusive nos EUA, continuam comprando e vendendo suas ações – (e pagando impostos no processo), o que é perfeitamente normal e benéfico para qualquer sociedade.

    O problema todo está na interferência do capital na esfera política, nos lobbys, nos subsídios exagerados e falta de carácter de empresários e políticos corruptos. É com esse povo que os ativistas deveriam se preocupar.

  4. Pingback: Nós somos os 99%: Occupy Wall Street « Baixa Cultura

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